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Neto de portelense, morto na Zona Sul de Porto Alegre, ajudava moradores de rua

Polícia Civil segue apurando a motivação do crime ocorrido no dia 25 de março

Por: Editoria Local Fonte: Com informações de GaúchaZH
03/04/2020 às 14h52 Atualizada em 03/04/2020 às 14h59
Neto de portelense, morto na Zona Sul de Porto Alegre, ajudava moradores de rua
Certa vez, Kauê doou até o moletom da escola ao encontrar um andarilho com frio (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Kauê Borile Weirich Xavier, de 16 anos e neto da ex-vereadora em Tenente Portela, Noeli Xavier, foi assassinado no início da noite da quarta-feira (25/03), em um matagal nas imediações da Avenida Juca Batista, na Zona Sul de Porto Alegre.

O adolescente desejava ser músico e, apesar da idade, acreditava que podia transformar o mundo. Ele ficava indignado e criticava quando alguém de sua família entregava poucas moedas a um morador de rua, pois entendia que não era o suficiente para comprar comida.

Desde que passou a lidar com a ausência do filho, Jacques Vianna Xavier tem se apegado no desejo do adolescente. O advogado recorda às vezes em que Kauê entrava pela porta de casa chorando porque não aceitava viver em um mundo onde as pessoas passassem fome.

Nas ruas por onde o filho andava, o advogado descobre histórias sobre Kauê. Era comum o jovem entregar as próprias roupas para moradores de rua. Certa vez, doou até o moletom da escola ao encontrar um andarilho com frio. – As coisas sumiam da geladeira e ele dizia que tinha comido – lembra o pai.

Um morador de rua contou a Jacques que ganhava carreteiro de Kauê. – É duro demais, como pai e como ser humano. Quando uma pessoa boa vai embora desse mundo, faz falta. Estamos tirando força dos amigos dele. Principalmente dos moradores de rua, de pessoas que ele ajudava. É consolador ouvir o que ele fazia pelos outros. Não via diferença nas pessoas. Só via seres humanos – ressalta o advogado.

Com a família, Kauê era amoroso, gostava de abraçar e beijar. Não hesitava em dizer que amava as pessoas. Dois dias antes de ser assassinado, recebeu um telefonema da avó paterna, sugerindo que ele se tornasse cientista, para ajudar a salvar pessoas. O adolescente respondeu que já tinha escolhido outro caminho: seria músico. Fazia aulas de guitarra duas vezes por semana, e acreditava que podia fazer a diferença na vida das pessoas assim.

Na noite do sábado (28/03), um dia após o enterro do filho, Jacques observava pela janela enquanto os garis trabalhavam em frente ao prédio. Pensou que talvez pudesse preparar algo para eles comerem. Recuou da ideia, diante da exaustão dos últimos dias. Foi quando as palavras inconformadas de Kauê se materializaram dentro dele. ‘Pai, vai deixar de dar comida para alguém por preguiça?’. O advogado preparou sanduíches e desceu até a rua.

Três dias depois, junto das outras duas filhas, Jacques preparou uma sacola de sanduíches, desta vez, para distribuir às pessoas que vivem na rua, no Centro Histórico de Porto Alegre. Na quarta-feira (01/04), lotou o fogão com panelas e preparou marmitas para entregar a quem está com fome.

– Precisa ser feito. E não é só pelo meu filho, é porque as pessoas precisam. As pessoas têm de ajudar o ‘Médicos Sem Fronteiras’, tem de doar órgãos, doar sangue. Têm de abraçar, beijar. Dizer que amam. Podem nunca mais ter a oportunidade de dizer. É algo que precisa ser feito – frisa o advogado.  

Investigação:

Segundo o delegado Raul Vier, da 2ª Delegacia de Polícia para o Adolescente Infrator (DPAI), a motivação do crime ainda está sendo investigada. Dois adolescentes estão apreendidos e confessaram participação na morte de Kauê.

A aposta da Polícia Civil é em uma análise técnica que está sendo realizada nos telefones celulares dos três adolescentes. Estão sendo avaliadas mensagens, áudios e vídeos trocados entre o trio. Também estão sendo ouvidos familiares e amigos. 

Ainda conforme o delegado, despertou a atenção, a crueldade do crime e o fato de que o indivíduo de 15 anos já tinha histórico de ameaça contra familiares. – Chamou a atenção, a frieza com que os infratores confessaram a morte do próprio amigo, com detalhes cruéis e extremamente violentos. O mais jovem dos autores constantemente ameaça os seus próprios familiares de morte, referindo que irá matá-los a golpes de facão – revelou o titular da 2ª DPAI.

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