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Quando a memória canta

Na voz trêmula de seu Alcides e no brilho dos olhos ao ouvir uma moda antiga, voltou um pedaço inteiro da infância e da cidade de outros tempos.

Por: Jalmo Fornari
24/07/2026 às 14h25
Quando a memória canta

Na Praça do Imigrante, fazendo o contorno em uma daquelas centenas de voltas que a gente acaba dando numa cidade pequena, em busca de coisa alguma — ou apenas para matar o tempo mesmo — vejo o seu Alcides.

Uma figura que povoou minha infância com seu jeito próprio de falar, sua simplicidade cativante e uma simpatia que o tornou, desde sempre, uma das pessoas queridas da cidade.

Ele vem sozinho. Aliás, como quase sempre andou. Bem arrumado, mas noto que está arcado e meio trêmulo. Paro o carro e o chamo. Ele me olha com um olhar distante, sem me reconhecer.

Insisto:

— Sou eu, o Jalmo!

Ele chega junto à janela da camionete e sorri, com os olhos brilhando.

— O “Jarmo” é você?

— Sim, sou eu, seu Alcides. Como estás?

— Óia, seu “Jarmo”, não tô muito bom, não!

Aquele olhar distante, longe do sorriso aberto de contador de histórias, me comove. Pergunto:

— Onde estás indo?

— Vou à farmácia comprar uns remédios pra barriga. Uns sal amargo.

Nem imaginava que alguém ainda tomasse sal amargo, aquele purgante que éramos obrigados a tomar rotineiramente na infância. Ri, e ele riu também.

Disse:

— Então suba aí que eu te levo. Na São Francisco ou na São João?

Eu dava a ele a opção das duas maiores farmácias da pequena cidade.

Ele respondeu:

— Na do Romildo. Vou ver se consigo um “a fiado”. O governo só me paga no fim do mês — disse, referindo-se à aposentadoria. — Daí eu vô lá e pago!

Olhei para aquele homem sofrido, puxei R$ 20,00 do bolso e disse:

— Compre o teu remédio.

Ele agradeceu, prometeu devolver no fim do mês e logo mudou de assunto.

— Seu “Jarmo”, eu “escuito” muito a tua rádio e gostaria que tocassem pra mim uma música daquelas boas de antigamente, como “O Casamento da Doralícia”...

E riu abertamente.

— Aquilo sim era música!

Eu ri. E, como a cidade é muito pequena, já estávamos em frente à farmácia do Romildo.

Ele se ajeitou para abrir a porta e descer, e eu resolvi provocar. Peguei rapidamente o celular e, no Spotify, coloquei, em alto som nos alto-falantes da camionete, Gaúcho da Fronteira cantando “O Casamento da Doralícia”.

O homem iluminou os olhos ao ouvir, quase imediatamente, o seu desejo musical atendido. Ensaiou a letra com um olhar de saudade.

— Isso sim era música boa!!!

Perguntei do que mais ele lembrava. Com visível esforço para puxar pela memória, foi desfilando nomes como Tonico e Tinoco, Xará e Timbaúva, entre vários outros.

— E música? — perguntei, provocando aquele homem simples.

Ele forçou a memória e lascou de “improviso”:

— Fizemos a última viagem, foi lá pro sertão de Goiás, fui eu e o Chico Mineiro e o capataz...

Ajeitando a letra à sua maneira, foi contando o desfecho da famosa canção sertaneja:

— Ele era meu legítimo “ermão”...

Eu ri, e ele riu também.

— Seu Alcides, que bom encontrá-lo!

Ele olhou para a farmácia e, antes de bater a porta para ir comprar o seu sal amargo, voltou-se para mim com os olhos ainda brilhando e disse:

— Obrigado, obrigado, seu “Jarmo”!!!

Fiquei olhando ele entrar na farmácia. Havia ali alguma coisa muito maior do que uma carona, vinte reais ou uma música tocada no celular. Havia um pedaço inteiro da cidade antiga, da infância da gente, caminhando devagar, meio trêmulo, mas ainda capaz de se iluminar ao ouvir uma canção.

E talvez seja isso que algumas pessoas representam: não apenas lembranças, mas pequenas portas abertas para um tempo que, de repente, volta inteiro dentro da gente.

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Jalmo Fornari
Jalmo Fornari
Jalmo Fornari é diretor-proprietário do Sistema Província de Comunicação. Jornalista já atuou nos principais veículo de comunicação do Rio Grande do Sul, como as rádios Gaúcha e Guaíba. Também é advogado com pós graduação em direito previdenciário. Como político foi vereador em Tenente Portela por diversos mandatos, tendo ocupado por diversos momentos o cargo de prefeito. Nesta coluna você acompanha crônicas, textos e memórias.
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