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Santa Maria: Tragédia da Boate Kiss completou sete anos

Justiça agendou os júris dos quatro acusados no processo criminal

Por: Editoria Local
27/01/2020 às 13h24 Atualizada em 27/01/2020 às 13h28
Santa Maria: Tragédia da Boate Kiss completou sete anos
Incêndio na casa noturna fez 242 vítimas. Outras mais de 600 pessoas ficaram feridas, algumas com sequelas irreversíveis (Foto: Edu Andrade/Agência O Globo)

Há sete anos, o Rio Grande do Sul vivia o mais triste e comovente domingo de sua história. O incêndio na Boate Kiss, no centro de Santa Maria, na madrugada de 27 de janeiro de 2013, fez 242 vítimas, na maioria, jovens estudantes. Outras mais de 600 pessoas ficaram feridas, algumas com sequelas irreversíveis.

De acordo com a investigação policial, o incêndio começou por volta das 02h30min após o vocalista da banda Gurizada Fandangueira acender um sinalizador de uso externo. O artefato (chamado de Sputnik) soltou faíscas que atingiram o teto da boate, incendiando a espuma de isolamento acústico que não tinha proteção contra fogo. Os músicos e um segurança tentaram controlar as chamas, mas não obtiveram sucesso. Em cerca de três minutos, uma fumaça espessa se espalhou por todo o ambiente da casa noturna.

Como a boate funcionava no sistema de comandas, os seguranças, acreditando se tratar de uma briga e que as pessoas queriam sair sem pagar, impediam a saída pela única porta existente. Dezenas de vítimas tentaram deixar o local pelos banheiros, confundindo com saídas de emergência que dessem para a rua. Por isso, 90% dos corpos foram encontrados nos banheiros.

A tragédia em Santa Maria é considerada a segunda maior no Brasil em número de vítimas, ficando atrás somente da tragédia do Gran Circus Norte Americano, ocorrida em 1961, em Niterói/RJ, que matou 503 pessoas. O incêndio na Boate Kiss também é registrado como o terceiro maior desastre em casas noturnas no mundo.

Vigília:

Pais das vítimas e sobreviventes da tragédia voltaram a se reunir, na noite deste domingo (26), em frente do que restou da Boate Kiss. A faixada do prédio envelhecido está coberta de grafites.

Organizada pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, a vigília em memória dos mortos aconteceu em clima de tristeza e indignação. Vestindo camisetas estampadas com fotografias dos filhos, o grupo de cerca de cem pessoas percorreu em silêncio os 450 metros entre a Praça Saldanha Marinho e a Rua dos Andradas.

Em frente ao prédio da antiga casa noturna, os participantes da vigília rezaram e prestaram homenagens as vítimas. No asfalto da Rua dos Andradas, foi pintado um coração e iluminado com velas. Frases como ‘a impunidade enlouquece’ e ‘a corrupção mata’ estamparam camisetas pretas confeccionadas especialmente para a ocasião. 

Quem são os réus e qual é a acusação:

- Os réus no processo criminal que apura as circunstâncias do incêndio na Boate Kiss são os sócios da casa noturna, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos (vocalista) e Luciano Bonilha Leão (ajudante).

- Os quatro respondem a ação penal por 242 homicídios e por 636 tentativas, com dolo eventual (quando se assume o risco de matar).

Entenda as últimas decisões da Justiça:

- Em outubro de 2019, o juiz Ulysses Louzada, da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, determinou que os quatro réus do caso fossem julgados em Santa Maria, em dois júris, marcados para 16 de março e 27 de abril de 2020.

- Em dezembro, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça (TJ-RS) decidiu que Elissandro Spohr seria julgado em Porto Alegre, em data a ser definida, atendendo ao pedido da defesa. O advogado Jader Marques argumentou que o desaforamento (transferência para outra Comarca) evitaria tumultos e garantiria imparcialidade ao júri.

- Na mesma decisão, a 1ª Câmara Criminal do TJ-RS definiu que os outros três acusados teriam júri conjunto em Santa Maria.

- Em janeiro deste ano, o juiz Ulysses Louzada confirmou a data do julgamento dos acusados Luciano Bonilha Leão, Marcelo de Jesus dos Santos e Mauro Hoffmann, em 16 de março de 2020. O júri será no Centro de Eventos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com início as 10h00min.

- No mesmo dia, a defesa de Marcelo de Jesus dos Santos pediu para que, como Elissandro Spohr, ele seja julgado em Porto Alegre. O pedido foi negado em caráter liminar e deverá entrar na pauta da 1º Câmara Criminal do TJ-RS. Não há data definida.

- Na última terça-feira (21), o Ministério Público entrou com recurso solicitando que Elissandro Spohr seja julgado em Santa Maria, junto dos outros três réus, mantendo a data prevista (16 de março). O pedido foi feito à 2ª vice-presidência do TJ-RS, para que seja remetido ao Superior Tribunal de Justiça.

- Por meio de nota, o advogado de Elissandro Spohr lamentou o fato e declarou que ‘a possibilidade de julgamento ainda neste primeiro semestre de 2020 tornou-se impossível’.

- Na última quarta-feira (22), foi a defesa de Mauro Hoffmann que ingressou junto ao TJ-RS com pedido de desaforamento, negado em caráter liminar. Agora, deverá entrar na pauta da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça. A defesa de Mauro Hoffmann também aguarda o julgamento do recurso que moveu junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a decisão que levou os réus a júri.

Cianeto:

O cianeto foi a substância apontada em um laudo técnico como a causadora da morte das pessoas, sendo que 235 perderam a vida naquela madrugada e sete nos meses seguintes a tragédia.

Segundo médicos especialistas, o organismo consegue neutralizar o cianeto combinando-o com enxofre para formar tiocianato, que é eliminado na urina. Se a quantidade é demasiada, o cianeto excedente se une à enzima citocromo oxidase das hemácias, provocando privação de oxigênio para as células. A morte acontece por parada cardíaca e respiratória, uma vez que o cérebro e o coração são órgãos vitais, que dependem de muito oxigênio.

A casa noturna:

A Boate Kiss em Santa Maria foi inaugurada no dia 31 de julho de 2009. Em alguns eventos, registraram-se filas enormes de frequentadores, somando mais de 1.400 pagantes.

No entanto, a capacidade da casa noturna, conforme órgãos de segurança pública, era de 691 presentes. A Polícia Civil estima que, na madrugada do incêndio, havia entre 1.000 e 1.500 pessoas no local.

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