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Dona Corina: Uma vida dedicada à vida

Com a realização de mais de 5 mil partos, Dona Corina, foi um símbolo de dedicação e doação à saúde regional

Por: Jonas Martins Fonte: Jornal Província em Parceria com RD FOCO
18/10/2019 às 10h27 Atualizada em 20/10/2019 às 11h12
Dona Corina: Uma vida dedicada à vida
Dona Corina faleceu aos 97 anos em Redentora (Fotos: Arquivo pessoal)

POR JONAS MARTINS

 

Era sábado, 12 de outubro de 2019, Dia das Crianças, a notícia do falecimento de Corina de Souza Castagnara, ou simplesmente Dona Corina, deixou a região em clima de luto e sentimento de perda. Não é para menos, pelas mãos da quase centenária senhora, tinha 97 anos no dia da sua morte, nasceram mais de cinco mil pessoas durante os seus 56 anos de dedicação ao ofício de parteira.

Em qualquer cidade da região é fácil encontrar pessoas que nasceram pelas suas mãos, como é o caso do redator dessa matéria ou Carlos Eugênio Simon, ex-árbitro de Copa do Mundo e atual comentarista de esportes nos canais Fox.

Na terça-feira dessa semana, em parceria com o site RD Foco, fui até a cidade de Redentora para conversar com algumas pessoas e escrever esse artigo, que tem como objetivo prestar uma pequena homenagem a uma grande mulher. Na cidade, conversamos com diversas pessoas que nasceram pelas suas mãos, que conviveram com ela no hospital ou na igreja, onde ela também teve uma participação ativa, mas foi na casa em que ela passou seus últimos dias, conversando com sua sobrinha, Helena Rossoni, que cuidou da tia, até os últimos dias, que encontramos um relato da vida de Dona Corina, ditado por ela mesma, pouco tempo antes dde seu falecimento.

É em cima desse relato que daremos luz a parte da história da talvez parteira com maior número de partos e que por mais tempo exerceu a função nessa região.

Dona Corina nasceu em 29 de maio de 1922 na cidade de Ernestina, então distrito de Passo Fundo. Filha de João Horácio de Souza e de Maria Alice Cardoso de Souza.

Com 17 anos começou a trabalhar no Hospital São Vicente de Paulo em Passo Fundo na área de serviços gerais. Em uma época em que a saúde ainda não era 100% profissionalizada, foi auto-didata, aprendendo com enfermeiras mais velhas, estudando como podia, prestando atenção em tudo, e por ofício se tornou enfermeira e aos 23 anos passou a ser instrumentadora na sala de cirurgia do Hospital, hoje referência no estado.

Na cirurgia, trabalhando lado a lado com a parteira do hospital ela aprendeu o ofício e se fascinou com a profissão e a responsabilidade de trazer vidas ao mundo. Nesta função, como auxiliar de partos, passou diversos anos trabalhando naquela instituição, até surgir a oportunidade de atuar como parteira no Hospital de Sertão. Lá permaneceu por seis anos.

Na década de 40 foi morar em Pato Branco, no Paraná. Segundo relato de seus familiares, ela se transferiu para a cidade após a morte de uma parente que deixou as crianças apenas com o pai. Ela foi para ajudar cuidar dar crianças. Na cidade logo começou trabalhar como parteira e enfermeira, onde atuou por dois anos.

No inicio dos anos 50 estabeleceu-se no município de Três Passos, onde trabalhou no Hospital do Doutor Milton Krause e mais tarde no Hospital São José.

De Três Passos se mudou para o Braga. Nesta época fazia partos a domicílio em toda a região, muitas vezes necessitando se deslocar no lombo de cavalos até seu destino. 

No início dos anos 60, recebeu o convite para residir em Redentora para a construção de um hospital no município. Junto com seu marido Salatyel Republicano Mairesse, construiu o Hospital Redentor, que mais tarde se tornaria o Hospital Santa Rita de Cassia, hoje fechado.

O professor aposentado Gabriel Wiczoreck, que chegou no município nos anos 60, relembra que na época a unidade hospitalar de Redentora era uma referência na região. Segundo ele, haviam seis médicos, e no local eram realizadas muitas cirurgias e todos os atendimentos.

Um dos irmãos mais jovem de Dona Corina, Alcindo de Souza, também lembra do hospital em seus primórdios. - Havia um jardim na frente, era um local muito bonito e com uma grande equipe. - Relembra, o hoje funcionário público aposentado, que mora em frente a casa onde sua irmã residiu por muitos anos.

Após o falecimento de Salatyell, anos depois contraiu matrimônio com o Ricardo Tesche, patriarca da família Tesche, de destaque em Redentora. Dona Corina não teve filhos próprios, mas considerava os de Ricardo Tesche, como seus próprios filhos, e o sentimento era recíproco, como esse redator inúmeras vezes presenciou por parte dos irmãos Paulo Ricardo Tesche, in memoriam, e Vilmar Tesche, que a não muito tempo atrás morou com Dona Corina, lhe fazendo companhia e lhe atendendo no que fosse necessário.

No Hospital de Redentora, Dona Corina trabalhou até o ano 2000, quando aos 78 anos realizou seu último parto e partiu para a aposentadoria. Ao todo foram 56 anos de enfermagem, tendo realizado diversos partos a domicílio, muitas vezes tendo de se deslocar a cavalo até a residência das mulheres. Em um caderno anotou muitos desses partos, e os números passam de 5 mil ao longo da vida, segundo suas próprias contas. No seu relato, ela cita que sua única tristeza na velhice era ver o hospital de Redentora, onde dedicou a maior parte da sua vida, fechado. O cadeado na porta, cortava o seu coração.

A quantidade de partos pode ser analisado pela família de Dona Helena Rossoni. Hoje com 65 anos, a sobrinha, nasceu pelas mãos da tia. Eniviane Rossoni de Moura, professora, ex-vereadora e filha de Helena, também e a terceira geração, a filha de Eniviane, Julia Felicia Rossoni de Moura, nutricionista, também nasceu pelas mãos de Dona Corina.

Esse relato é importante para entendermos os últimos meses da quase centenária parteira. Há dez meses, quando já estava bem debilitada, a sobrinha, Helena, levou a filha para morar com ela.

Há quase meio século, o caminho tinha sido inverso. Dona Corina que foi até o interior de Três Passos, e buscou Helena para morara com ela em Redentora. Na cidade Helena fixou raízes, casou-se e constituiu família.

Helena Rossoni relata que nos últimos meses, apesar da idade avançada, e dos problemas de saúde, Dona Corina ainda era muito lúcida, conversava, contava causos, tomava chimarrão e fazia as suas orações. Nessas orações havia muitos nomes pelos quais ela pedia bençãos, entre ele a da sua outra sobrinha, Clara, que lhe ajudou durante muito tempo.

Os últimos instantes de vida de Dona Corina, começam com ela internada no Hospital Santo Antônio de Pádua de Coronel Bicaco. Após a alta hospitalar, ela voltou para casa. No final de tarde da sexta-feira,  tomou chimarrão e conversou com a sobrinha. Estava com um olhar distante, mas parecia estar bem. Durante a noite  começou a passar mal e durante a manhã piorou.

Um casal de médicos, vizinhos, vieram até a casa e passaram a lhe prestar todo o auxilio necessário, sabendo, que aqueles eram os seus últimos momentos de vida, a opção final foi por deixá-la no coforto de seu quarto, cercado das pessoas que lhe amavam.

Eniviane esteve ao lado dela o tempo todo. Segurando a sua mão. Ela estava nos braços da professora quando deu seu último sopro de vida. As mesmas mãos que se tocaram quando Eniviane nasceu, estiveram novamente juntas quando Dona Corina partiu.

O destino, esse gaiato que brinca com a vida dos homens, reservou a Dona Corina, o Dia das crianças para que ela deixasse o mundo dos vivos, nos braços de uma das muitas crianças que ela ajudou segurou nos braços no dia de seu nascimento. Os braços de Dona Corina, foram os primeiros que Eniviane sentiu em vida e os de Eniviane foram os úlimos que Dona Corina sentiu ao deparar-se com o fim.

Poderia ser o roteiro de um romance bem escrito, mas é a vida real,  que para a sorte de mais de cinco mil crianças, deu a Dona Corina uma vocação e ela soube fazer dessa uma missão de vida. 

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