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Especiais Especial

As histórias por trás do incêndio: Prefeito, bombeiro e Brigada

Nossa reportagem foi atrás das histórias que movimentaram essa ocorrência em Tenente Portela

07/05/2021 11h17
Por: Raiana Silva Fonte: Jornal Província
Dona Leda perdeu a casa em um incêndio no Centro da cidade (Foto: Riana Silva)
Dona Leda perdeu a casa em um incêndio no Centro da cidade (Foto: Riana Silva)

Uma noite inesperada de desespero e união. Tenente Portela parou na madrugada de segunda-feira (3)  para acompanhar o desfecho do incêndio na residência da recicladora Leda Santuari e seu filho Anderson próximo ao Hospital Santo Antônio. Além dos registros das câmeras, houveram pessoas que salvaram dona Leda, o filho e seus animais, evitaram uma tragédia de proporções maiores e mostraram exemplos de solidariedade. Nossa reportagem conversou com esses personagens para mostrar diferentes ângulos da mesma história. 

Prefeito da Barra do Guarita e populares salvam a família e animais

O prefeito Rodrigo Tissot e alguns populares foram as pessoas certas, na hora certa. Naquela noite a autoridade precisou trazer o sobrinho até a emergência do hospital Santo Antônio, próximo ao local do incêndio. Enquanto aguardavam o atendimento receberam a notícia - “Estávamos no hospital quando alguém contou que uma casa estava pegando fogo e havia uma senhora dentro. Eu e mais duas ou três pessoas, que nem reconheci, fomos até o local para ajudar”, afirmou Tissot. 

Ele relata que ao chegarem, a casa estava em chamas, porém a moradora, o filho e os animais não haviam saído. Ele e as pessoas que estavam no hospital e vieram junto subiram as escadas em direção a casa de madeira em chamas- “ Chegamos lá e fomos soltando os cachorros, e chamando ela para sair de perto da casa. Porém ela insistia em se aproximar em ficar perto do fogo, tentar salvar algo dentro da casa. Foi então que conversei e disse - a senhora vai ter ajuda, vão chegar para apagar o fogo, só que agora precisa sair para se salvar. A vida em primeiro lugar. - Consegui convencer ela e saímos em meio a fumaça”, relatou. A coincidência dos fatos, do prefeito estar no momento certo, salvou a família de dona Leda.

Hóspedes de hotel vivem momentos de tensão

Às 23h54min as câmeras de vigilância do Hotel Aracê, ao lado da moradia, começaram a captar um clarão na janela de trás da casa em meio ao breu da noite e em cerca de dez minutos as chamas se transformam em uma grande fogueira. A fumaça tóxica e sufocante adentrou os andares do prédio, apavorando os hóspedes nos quartos. Fortes estalos podiam ser ouvidos, vidros trincando, e um calor intenso tomou o restaurante e apartamentos que ficavam na parte de trás do hotel. Roselaine Cruz, gerente da empresa hoteleira, contou que ela e o esposo Renato assim que receberam a notícia do recepcionista se deslocaram até o local 

- “Foi tudo muito rápido. O Renato subiu e jogou a mangueira do hidrante pela janela, eu fui para o andar de baixo fazer o mesmo. Fechamos boa parte das janelas pois a fumaça tinha um cheiro muito forte. Como o alarme não disparou, avisamos a cada hóspede sobre de onde estava vindo a fumaça e iniciar a evacuação. Ficamos com medo do vento, de que alguma faísca chegasse a rede elétrica ou de outra forma no hotel. Poderia ter sido uma tragédia maior. Graças a Deus que tivemos ajuda das pessoas, dos bombeiros e tínhamos os hidrantes”. 

Correria nas escadas. Hóspedes saindo em meio a neblina para a rua aguardando cessar o incêndio. Renato Cruz conta que - “O calor era intenso no estacionamento que fica ao lado da casa. O fogo vinha da parte de trás. Recebi ajuda de outras pessoas que não conheço para jogar água nas chamas. Apagavam [as labaredas] num ponto mas logo estava alto de novo, o medo era que viesse no hotel”. Nenhum dos hóspedes se feriu ou chegou a passar mal. Todos ficaram na rua aguardando, mas como era impossível retornar, foram levados a outro hotel.

Bombeiros voluntário agiram rápido

Os bombeiros voluntários portelenses realizaram grande esforço durante o episódio. Foram mais de dezoito mil litros de água para controlar as chamas. O bombeiro voluntário, Luciano Berta, um dos primeiros da equipe a chegar ao local, relatou à nossa reportagem que ao chegar iniciou com um canhão de água, para atingir a cinquenta, sessenta metros e realizou a  primeira calmaria do incêndio junto aos populares que também auxiliavam com mangueiras do hotel. Até o Corpo de Bombeiros de Três Passos chegar, foi aproximada 1h de combate. Devido a esse longo tempo, o corpo acaba sofrendo as consequências mesmo com as roupas e acessórios corretos. 

- O calor era muito intenso e a gente sofre, desidrata. Eu tiro o chapéu para quem estava ajudando com roupas normais expostas ao risco. Com a chegada do Corpo de Bombeiros de Três Passos eu pude sair e acabei até passando mal pois foi um longo período de exposição - ressaltou.  Litros, baldes, arames eram alguns dos obstáculos no terreno e dentro da residência, fato que dificultava a mobilidade das ações. Os trabalhos foram até às quatro horas da manhã, porém devido a quantidade de material, a residência ter um porão, o fogo persistiu em pequenos focos ao longo de toda a segunda-feira. O bombeiro relata ter retornado diversas vezes para conter as chamas.

Brigada Militar resgata cão aos fundos da casa

Mesmo com a perda da casa e todo o risco, a moradora Leda apenas tinha uma preocupação: os animais. Desesperada pela falta de um de seus cães, Leda foi até a guarnição da Brigada Militar que estava no local pedindo ajuda para soltar o animal que estava nos fundos da casa. Prontamente os militares, se dirigiram em busca do cãozinho caramelo. Um dos policiais filmou o momento em que o cão é encontrado dentro da casinha de madeira, amarrado pela corrente, assustado com toda aquela movimentação. No vídeo que circula pelas redes sociais, o policial tem dificuldade para retirar a corrente do pescoço do cãozinho e um deles menciona “calma amiguinho, já vamos te salvar”. Logo em seguida o cão se liberta e vai para a rua, onde está a dona.

Ao visitar o local na tarde da última quinta-feira (6), o cãozinho encontrava-se na casinha instituída de sua pela dona. A fidelidade segue, não só dele, mas de todos os animais. Inclusive, latindo forte para quem se aproxima dos destroços.  

Pessoas vem de pijama para ajudar

A fumaça, a sirene dos bombeiros atraiu famílias portelenses com olhares arregalados, preocupados, tentando achar uma forma de ajudar vindo até de pijama para ver o ocorrido. Populares afirmaram que o  fogo intenso podia ser visto há 300 metros longe do local e muitos acreditaram ser no hospital Santo Antônio. Por volta da 00h40min as ruas Pindorama e Tamoio eram tomadas de pessoas, que conversavam baixo nos carros, em pé nas calçadas. Nossa reportagem registrou o momento em que o bombeiro voluntário Berta começa a passar mal devido ao calor e à fumaça. Em seguida, uma moça de pijama, que assistia da calçada o ocorrido, vai em direção ao bombeiro para ajudar. Outro chega para auxiliar, e mais uma moça com uma garrafa de água. Um cenário de união e solidariedade apesar da fatalidade entre autoridades locais como prefeito, secretários, comerciantes e moradores.

Leda e o filho se recuperam do impacto

Descrente, nervosa, triste e sem rumo. É assim que Leda, de 70 anos, natural de Três Passos, se descreve hoje ainda incrédula do ocorrido e sem planos para o futuro - As vezes me parece que estou sonhando, e uma hora vou acordar. Tudo que eu construí, do jeito que eu quis a 30 anos queimou. Mesmo com ajuda, estarei começando do zero”. Relatou que passou três dias sem conseguir caminhar muito no hotel devido ao choque, a tristeza que sente. Sua maior preocupação, primeiro lugar, são os cinco animais deixados em sua casa e em segundo, onde viverá com o filho - “Eu não sei como eles [os animais] estão. Se estão comendo, tem onde ficar. Será que algum morreu? [...] Coitado do meu fofão, o gato, adorava dormir perto de mim. Para onde vamos? Meu filho é doente e não consigo pensar em nada”. 

Muito abalada, ela ainda não visitou o local, e perguntou a reportagem se os animais estavam vivos e sendo tratados. Relatamos que sim, inclusive voluntários da Appata estão levando ração no local e deixa uma certa quantidade aos vizinhos para que em determinadas horas do dia alimentem os quatro cãozinhos e gato. Ela sorriu e agradeceu a informação, aparentando estar mais aliviada. Mencionou que só queria ir lá por eles, mas só de pensar em ver a cena da destruição sente um mal-estar. Da noite lembra de estar com uma sensação estranha, e resolveu sair com o filho para caminhar. Ao retornar, o fogo havia iniciado. 

Ela analisou a situação de duas formas - “Quem sabe se tivéssemos ficado em casa não teria acontecido. Mas como muitos me disseram, isso foi para o nosso bem, por isso devo agradecer por estar viva. De certa forma, quem sabe poderíamos nos queimar ou até acontecer coisa pior” - finaliza. Relatou lembrar brevemente de ver alguns homens chegarem e a impedir de ir nos fundos, local onde as chamas eram enormes, e também a impediram de adentrar a casa. Os homens, são o grupo que incluiu o prefeito de Barra do Guarita, mencionados no início da matéria.

Sobre a casa e o terreno, estivemos conversando com a secretária de obras Salete Sala. Devido ao solo encharcado, os trabalhos de limpeza não puderam ser continuados na terça-feira. A assistência social vem mantendo contato com a família, auxiliando nas hospedagens, alimentação, levando roupas até uma decisão ser tomada sobre o futuro. Leda sonha em um dia ter uma casa, com um degrau na entrada para não prejudicar o joelho desgastado, com suas “coisinhas” de novo. Um novo recomeço. 

 

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