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Recordando o Paulista

"Um dia chegou de longe, Nunca se soube de donde..."

12/06/2024 às 15h27 Atualizada em 12/06/2024 às 15h34
Por: Jalmo Fornari
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Recordando o Paulista

 

Ninguém jamais soube como ele veio parar por aqui. Transcorriam os anos 60; para se chegar a Portela, era preciso atravessar pelo menos três balsas ou uma estreita ponte de ferro nas proximidades de Esquina Fogo. As toscas balsas eram a maneira de transpor o Rio Turvo, para quem viesse por Três Passos; o Rio Uruguai, para quem viesse de Santa Catarina; ou o Rio Guarita, para quem viesse da direção de Frederico Westphalen, antigo Barril. Mas ele chegou em Portela, onde se estabeleceu por alguns anos, até morrer. Se estabelecer, neste caso, significa ficar. Falava muito pouco, só o necessário mesmo. Era um homem triste e solitário. Se aquerenciou em um puxadinho próximo à rua Tapijara e, anos depois, em um posto de gasolina, onde, durante o dia, sóbrio, auxiliava em tudo que fosse necessário em troca de um prato de comida. À noite, nos seus últimos anos, dormia nos fundos do prédio, funcionando como uma espécie de vigilante. Aí sim, quase sempre estava bêbado. Bebia cachaça mesmo, que, de uma maneira muito peculiar e própria, chamava de “Dá Lá Hóstia”.

Mesmo informando que seu nome de batismo era João Lázaro, as pessoas insistiam em chamá-lo de Paulista. Aliás, o apelido era para registrar a sua origem estampada no sotaque de paulistano do interior. Raramente ele falava a seu respeito. Era discreto quanto à sua origem e seu passado. Entre os poucos que conseguiam romper a barreira do distanciamento e, consequentemente, a sua atenção, estava o Elias, dono do posto onde ele dormia bêbado até seus últimos dias. O próprio padre Albino tentou devassar o passado do personagem enigmático, mas não obteve resultado algum. De conhecimento amplo, só mesmo o fato de o Paulista ter sido motorista de caminhão por muitos anos. Isto era evidente, porque sóbrio mostrava uma destreza impressionante na manobra dos enormes FNMs, que eram o “must” daqueles tempos. Assim, ganhou confiança para conduzir pessoas em alguma viagem curta em seus automóveis.

Em torno das misteriosas razões de estar e permanecer em Portela, sempre houveram especulações de toda a ordem. Uns diziam que a família havia morrido e ele, decepcionado com a possível tragédia, saiu a vagar pelo Brasil até encontrar guarida na pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Outros afirmavam que o ouviram contar que tivera uma decepção amorosa, que certa vez, quando voltou para o lar para fazer uma surpresa à amada, a encontrou com outro. Alguns apimentavam mais ainda o imaginário drama e apostavam que ele havia fugido porque matara o casal de amantes. Havia ainda alguns que contavam que ele havia se envolvido em um acidente. Diziam que ele estava conduzindo o seu caminhão quando um automóvel na contramão teria se chocado de frente. No carro viajava uma família: o casal e os três filhos. Todos teriam morrido no local. Por mais que tentasse, Lázaro não teria conseguido salvar ninguém. Daquele dia em diante, ele deixou a estrada e passou a vagar até acabar chegando em Portela. Verdade ou não, ele mesmo nunca confirmou nenhuma dessas histórias.

Assim foi a vida do Paulista na pequena Tenente Portela dos anos 60 e 70. Teria uns 60, 65 anos quando, por excesso de bebida ou talvez até de tristeza, faleceu. Seu funeral reuniu muita gente. Mesmo não tendo uma vida social na cidade, todos gostavam dele, principalmente por sua discrição e sua disposição de auxiliar as pessoas em qualquer tarefa. Como não tinha ninguém por ele, tinha todos. O Elias correu o comércio com uma caderneta solicitando ajuda para as despesas do funeral. Arrecadou mais do que esperava. Encerrada a lista, muitos ainda apareceram querendo ajudar. O dinheiro foi o suficiente para o funeral e para fazer o jazigo, local onde até hoje, dizem alguns, do nada, algumas velas aparecem acesas.

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Jalmo Fornari
Sobre o blog/coluna
Jalmo Fornari é diretor-proprietário do Sistema Província de Comunicação. Jornalista já atuou nos principais veículo de comunicação do Rio Grande do Sul, como as rádios Gaúcha e Guaíba. Também é advogado com pós graduação em direito previdenciário. Como político foi vereador em Tenente Portela por diversos mandatos, tendo ocupado por diversos momentos o cargo de prefeito. Nesta coluna você acompanha crônicas, textos e memórias.
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