Reflexão
Não há dúvida de que a morte é a única certeza da vida. Ninguém escapa dela. Ainda assim, enquanto estamos aqui, é preciso louvar a existência e alimentar a preciosa expectativa do que ainda pode acontecer.
Tenho uma pessoa próxima que parece olhar o mundo a partir do fim. Todos os dias, abre as redes sociais e compartilha registros de pessoas que partiram. As mortes de jovens são as que mais o impressionam. Ele enumera ausências como se buscasse dar um ar de naturalidade ao inevitável. Isso assusta. Não porque a morte não seja natural — ela é certa, surpreendente e intransferível —, mas porque, ao ocupar tanto espaço, acaba empurrando a vida para o segundo plano.
Esse olhar me causa arrepios. Amo a vida. Prefiro, enquanto posso, celebrar o que nasce, o que se renova, o que traz alegria e descoberta. Por mais dura que às vezes seja, por mais carregada de situações inesperadas, a vida é extraordinária. Ela se refaz a cada instante, em cada experiência, em cada encontro. Talvez o seu maior fascínio esteja justamente nisso: nada se repete.
A morte virá em algum momento, sem dúvida. Ela representa o fim inevitável de tudo o que somos. Mas, enquanto não chega, existe um universo inteiro de possibilidades diante de nós.
Meu amigo parece preso à dor das despedidas, como se vivesse sob a sombra permanente do adeus. Ao antecipar o irremediável, deixa de perceber que, na plenitude da vida, além das lembranças que um dia se tornarão eternas, existem coisas simples e belas que merecem o encanto do nosso olhar.
Porque, entre uma partida e outra, há motivos para viver com intensidade: os afetos, os recomeços, as pequenas alegrias do cotidiano… e até a paisagem despretensiosa de um fim de tarde, lembrando que a vida, apesar de tudo, continua sendo o nosso maior presente.
(jf)