
Eu tinha uns 16 anos e já estava trabalhando. Era funcionário da Rádio Municipal, emprego que meu pai conseguiu falando com Elcides Salamoni, depois que eu havia desistido dos três últimos serviços que ocuparam boa parte da minha adolescência.
Comecei a trabalhar aos 13 anos, no Mercado Capalari, ensacando produtos e operando uma moderna máquina que soldava embalagens plásticas. Bastava organizar uma fila de pacotes pesados e, depois, pisar no pedal da máquina, soldando um a um os saquinhos plásticos em que fracionávamos os produtos comprados em sacas de 60 quilos.
Depois fui vendedor na loja do Turco Elias. Atendia agricultores que vinham à cidade comprar mantimentos e roupas com o dinheiro da venda de suas safras. Vendia muitas botas de borracha, chapéus Ramenzoni e centenas de metros de tecido — riscado para calças, xadrez para camisas. Vendia tanto que, não raro, sobravam no estoque apenas um pé de bota ou uma chinela sem par.
Mais tarde, depois de ficar semanas bisbilhotando na oficina de consertos de rádio do Evaldo, fui admitido como aprendiz. Na época, a maior parte do serviço consistia em transformar rádios “de luz” ou de bateria em aparelhos “transistorizados”. Fora a fonte e as bobinas, trocava-se quase tudo nos velhos aparelhos Semp, Philips, Orbiphon e outros menos famosos.
Mas o emprego na Rádio era um sonho — e acabou determinando meu futuro. Trabalhei mais de meio século no setor.
Na Rádio Municipal eu era técnico de som e, eventualmente, por insistência do Lavarda, escrevia alguns programas copiando textos da Enciclopédia Delta e das revistas Seleções, que o pastor Norberto comprava toda semana e depois deixava na biblioteca.
Durante algum tempo, fiquei encarregado de abrir a rádio, ou seja, ligar os equipamentos às cinco horas da manhã. O primeiro programa do dia era o Bom Dia Minha Terra, apresentado pelo patroleiro Lúcio Motta. Aliás, um patroleiro que, graças à simpatia e à facilidade de comunicação, acabou se tornando o vereador mais votado da história do município e, anos depois, prefeito por dois mandatos.
Quem me buscava era o Vermelho. Levantava às quatro da manhã, fazia o mate, pegava seu Chevette Tubarão branco — zero quilômetro na época — e passava na frente da minha casa.
Quando a buzina soava, eu geralmente ainda estava na cama. Pulava num salto, vestia a primeira calça e camisa que encontrava, passava água no rosto, escovava os dentes às pressas e ia cuspindo espuma pelo caminho. Ao entrar no carro, sempre recebia uma reclamação do Vermelho pela demora.
Naquela manhã tudo se repetiu como nos dias anteriores.
Chegando à rádio, o Vermelho abriu a porta. Subimos a escada e eu, dois ou três passos atrás, aguardava enquanto ele destrancava a entrada. Foi então que, atrás de um vaso de flores que ficava à direita da porta principal, ouviu-se um barulho seguido de um grito:
— Agora te peguei!
Junto com o berro, veio o ruído de um facão sendo arrancado da bainha, raspando no chão e levantando faíscas.
Saí correndo em direção ao carro. Mas, para minha surpresa, o Vermelho puxou do bolso um pequeno revólver calibre 22 e começou a atirar na direção do vulto, que disparou rua abaixo em direção ao Internato Evangélico.
Foram quatro estampidos.
Depois de alguns segundos de correria e susto, ouvimos uma voz desesperada gritando lá adiante:
— Não atire, Vermelho! Você vai me matar! Sou eu! Era brincadeira!
Era mesmo.
Zeno Scheffer, um dos locutores da emissora, talvez tomado pela insônia ou pela vontade de fazer graça, resolvera nos pregar uma peça. Segundo contou depois, havia acordado cedo e ido até a rádio para tomar mate conosco antes do Bom Dia Minha Terra.
Quase morreu por causa disso.