
A partir do interior de casas prisionais, era comandado o tráfico aqui na Região. Especialmente dos presídios de Montenegro e de Carazinho, líderes gerenciavam os traficantes. Eles eram os donos dos pontos de drogas na Região Celeiro. Um apenado se intitulava como dono do monopólio de distribuição de drogas e como dono dos pontos de vendas de drogas; num esquema estruturado e hierarquizado as drogas eram encaminhadas a gerentes regionais - identificados em Redentora, Coronel Bicaco, Tenente Portela, Santo Augusto, Campo Novo e Três Passos, que as distribuíam a gerentes locais e demais traficantes – que eram responsáveis por pontos de vendas a usuários. Cada um desses núcleos acrescentava o seu próprio lucro sobre o preço da droga e assim a cadeia se tornava sustável e dependente uma da outra.
Num primeiro momento, de forma amistosa. Na medida que o fenômeno se instalou na região os traficantes locais foram informados dessa nova organização que passaria a gerenciar a venda de drogas. Aqueles que aceitavam o comando seguiam regras rígidas de fidelidade na compra e venda de drogas somente da organização. Quando havia falta de drogas num ponto, as substâncias eram remanejadas de outros pontos para suprir a demanda. Outro detalhe do modo de agir dos criminosos eram que pontos que vendiam menos drogas eram instados a melhorar o seu desempenho, muitas vezes de maneira até ameaçadora.
Muitos indivíduos que estavam envolvidos com a organização também estão envolvidos com homicídios e tentativas de homicídio além de furtos de veículos e crimes contra o patrimônio. Exemplo disso são um roubo num posto de combustível em Coronel Bicaco e um roubo no tabelionato naquela cidade. Geralmente esses crimes eram cometidos para financiar o tráfico. Não havia uma ordem direta da organização para cometer esses crimes, mas eles eram feitos para financiar o tráfico e muitas vezes para pagar dívidas. Um exemplo disso é o caso ocorrido em Tenente Portela onde um integrante cometeu um assalto para pagar a dívida e mesmo assim não conseguiu e então foi ordenada a sua execução, ele sobreviveu e através desse caso conseguimos identificar dois matadores da organização. No decorrer das investigações já havíamos prendido outros dois homens que seriam matadores do grupo criminoso.
Foi a mudança do perfil tradicional de vendas de drogas para uma nova ordem estruturada e hierarquizada, que, por seus integrantes, passou a funcionar com alto grau de periculosidade social diante de suas ações marcadas com acentuada violência e intimidação, audácia, franco sentimento de impunidade e o absoluto desvalor pela vida alheia. Era notório que os integrantes da organização alimentavam a sensação de que não haveria respostas estatais às suas ações. Por fim, se verificaram episódios negativos de glamorização do crime, em que alguns jovens em cidades da Região se sentiram atraídos pela “vida do crime” e pelo falso poder que procuravam ostentar.
Muitos crimes que nós combatemos são patrocinados pela sociedade. Se não houvesse a figura do apostador, não haveria o apontador do “Jogo do Bicho”; se não houvesse o receptador, se reduziria drasticamente os crimes contra o patrimônio; o contrabando segue a mesma lógica. E, nessa perspectiva, quem fomenta o tráfico é o usuário de drogas. O tráfico de drogas funciona similar a qualquer lei de mercado, ou seja, onde há demanda há oferta. Essa organização criminosa, estruturada e hierarquizada só existe aqui por que há demanda, que não é pequena e se situa em todas as classes sociais, com destaque ao comércio de drogas sintéticas e de cocaína praticamente à classe média-alta (onde está situada significativa demanda de consumo em toda a Região). Assim, o tráfico de drogas, em boa parcela, tem a própria sociedade como seu patrocinador direto. É importante que haja essa consciência das pessoas, das famílias. O uso de drogas é um problema social e não exatamente de segurança pública – que deve se ocupar em combater o tráfico, todavia, de nada adianta combater o tráfico se não há combate ao uso. É necessário que as pessoas reflitam e tenham consciência disso, principalmente os usuários – responsáveis diretos por movimentar esse mecanismo criminoso que ceifa vidas, destrói famílias, a saúde pessoal, gera insegurança pública, com reflexos diretos na paz, segurança, e bem-estar social dos cidadãos de bem.