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Zé Gaio e os fios do Mercury

O homem que nos socorria nas noites escuras

Por: Jalmo Fornari
03/08/2026 às 10h10
Zé Gaio e os fios do Mercury

Zé Gaio era uma figura inconfundível, conhecida e querida por toda a comunidade da pequena cidade. Chamava atenção por suas características pessoais, por seu jeito peculiar de falar e, principalmente, porque era a primeira pessoa de quem todos se lembravam quando faltava energia elétrica.

Durante chuvas e temporais, quando as amareladas lâmpadas de filamento começavam a piscar e, por fim, apagavam, os moradores, cada qual no seu canto, tomavam a mesma providência:

— Chamem o Zé Gaio da CEEE!

Naquele tempo, a antiga Companhia Estadual de Energia Elétrica era responsável pelo fornecimento daquilo que todos chamavam simplesmente de “luz”.

Zé Gaio era um dos funcionários pioneiros da companhia na região. Permanecera na pequena cidade depois da instalação dos primeiros postes, naquele distante mês de maio de 1955. Coube a ele coordenar os serviços de ampliação da rede elétrica, que, aos poucos, substituiu os raros geradores fumacentos e barulhentos. Eles funcionavam apenas quando estritamente necessário e, geralmente, eram desligados por volta das dez horas da noite.

O Zé possuía um olhar clínico. Depois de ouvir atentamente os moradores descreverem os sintomas da queda de energia, assumia uma expressão distante e compenetrada, como um médico diante de um caso raro, e lançava o diagnóstico:

— Caiu a chave!

Em outras ocasiões, sentenciava:

— Foi só uma queda de fase!

Ou, diante de uma situação aparentemente mais grave:

— Rompeu a rede. Pode ter caído um poste!

Depois do veredito, partia para o trabalho sob os olhares curiosos e admirados dos moradores, que acompanhavam seus movimentos como se estivessem diante de uma autoridade científica.

Mas nem todos os dias faltava luz, e nem sempre o trabalho exigia a presença do Zé Gaio. Nos períodos de tranquilidade, ele gostava de se reunir com os amigos nos bares e nas festas. Apreciava uma “cangibrina”, é verdade, mas, justiça seja feita, procurava beber apenas quando estava de folga.

Como entendia muito de energia elétrica, algumas pessoas acabavam atribuindo a ele conhecimentos em todas as áreas nas quais existisse um fio, uma tomada ou alguma coisa que pudesse dar choque.

Quando o velho rádio da sala deixava de funcionar, por exemplo, logo chamavam o Zé. Ele examinava o aparelho, verificava se havia energia na tomada e, constatando que a luz estava chegando normalmente, encerrava o atendimento:

— Daí pra frente já não é mais comigo!

Alguns, porém, iam ainda mais longe e imaginavam que Zé Gaio também entendia de mecânica.

Certa noite, ele retornava de uma festa no Mercury 1948 do amigo Artêmio. A comemoração havia sido generosamente regada a “canha”, e o próprio Zé já ultrapassara um pouco os seus limites. Estava, como se dizia por aqui, quase “miando”.

No meio do caminho, o velho Mercury, equipado com um imponente motor de oito cilindros, engasgou, tossiu e parou de vez.

Um dos ocupantes logo se animou:

— Ainda bem que temos o Zé conosco!

Zé Gaio, consciente de seu estado, tentou recusar a missão. Alegou que mecânica não era exatamente a sua especialidade. Mas, diante da insistência dos companheiros, pegou um alicate, abriu o capô do Mercury e iniciou uma demorada e teatral inspeção.

Olhou os cabos, examinou o motor por todos os lados, coçou a cabeça e, por fim, anunciou:

— Essa é fácil! Tem fio demais neste motor. No meu Jeep, que funciona bem uma barbaridade, tem só a metade disso!

Sem vacilar, começou a cortar os cabos das velas. Cortou um, depois outro, e continuou até deixar apenas quatro.

O resultado não poderia ter sido outro: se antes o Mercury ainda ameaçava funcionar, depois da intervenção do Zé não deu mais nem sinal de vida.

Sem alternativa, todos tiveram de seguir o restante do caminho a pé.

Na manhã seguinte, o Mercury foi levado à oficina. Depois de examinar o estrago, o verdadeiro mecânico chamou o Zé e explicou, com toda a calma:

— Zé, o teu Jeep tem quatro cilindros. Este Mercury tem oito. Por isso ele precisa de oito cabos de vela.

Zé Gaio pensou por alguns instantes, olhou novamente para o motor e respondeu, com a segurança de quem não admitia ter errado:

— Pois então o problema não é meu. A culpa é do Artêmio, que foi comprar um carro com fio demais!

E assim permaneceu a fama do nosso inesquecível Zé Gaio: quando faltava luz, todos corriam para chamá-lo. Mas, quando aparecia um automóvel pela frente, tratavam logo de esconder o alicate.

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