
Estávamos no início dos anos 1950. Os protagonistas dessa história eram dois jovens que, por vontade própria ou por imposição familiar, passaram a viver em um pequeno distrito do município de Três Passos. A vila de Tenente Portela recebia, quase todos os dias, novos moradores vindos das chamadas colônias velhas.
Ele, Genuíno, havia chegado cinco anos antes, com apenas 15 anos, incumbido de construir seu próprio destino. A família não se adaptou ao local e seguiu adiante. Genuíno, tímido e esperto, ficou na vila junto com o irmão Elias. Trabalhou primeiro em um moinho — onde se produzia quirera, farinha de milho e, mais tarde, de trigo. Logo foi promovido a motorista de um caminhão F-6 da firma, levando suínos aos grandes centros. Com 18 anos, foi servir ao Exército, onde, por sua experiência com veículos, tornou-se motorista da ambulância da corporação.
Ela, Lydia — minha mãe — chegou por essa época à vila, junto com os irmãos, para abrir uma oficina mecânica com seção de peças e, mais tarde, um pequeno posto de serviços. Começou atendendo no balcão da oficina, até que lhe ofereceram uma vaga como “caixa” na firma Rosa Lopes — a mesma em que meu pai trabalhava.
Trabalhavam em setores distintos, mas seus caminhos se cruzavam. Genuíno, então com 19 anos (ela tinha 23), tentava se aproximar, ajudando no atendimento. Lydia, orgulhosa, se irritava com aquele “piá do caminhão”, julgando-se hierarquicamente acima dele.
Até que chegou a tradicional festa da igreja, realizada desde 1946. Funcionários da firma visitavam as barracas de prendas e doces. Em uma delas, Genuíno girou a roleta e foi sorteado com uma bela imagem de Nossa Senhora. Lydia, religiosa desde sempre, implorou para ficar com a imagem. Ele, no entanto, fez-se de desentendido e guardou a santa no bolso da bombacha.
Alguns dias depois, Lydia refletia sobre o rumo da vida. Sem pretendentes e sentindo o tempo passar, via o casamento como única alternativa — ou, quem sabe, o convento.
Fez então uma promessa silenciosa:
“Farei uma novena. Se ao final dela, algum dos rapazes com quem cruzei o caminho se manifestar com seriedade, será com ele que construirei minha família.”
Fez a novena com fé. No nono dia, nada. No décimo, nenhum sinal. Sentada na varanda da casa — que viria a ser nossa — ela olhava o horizonte, resignada, cogitando a vida religiosa.
Foi então que ele apareceu.
O rapaz das bombachas, o mesmo que raramente passava por ali, surgiu tímido. Aproximou-se da varanda e, com um cumprimento respeitoso, tirou do bolso a imagem de Nossa Senhora e disse:
— Desculpe não ter te dado antes. Tenho pensado muito nisso... e ontem a noite decidi que precisava te trazer.
Talvez tenha sido esse o sinal que ela esperava. Talvez tenha sido fé. Talvez destino.
Fato é que eles começaram a se aproximar. Namoraram, noivaram, casaram. Tiveram seis filhos — todos homens — e viveram mais de 60 anos de uma história de amor, construída sobre carinho, respeito e uma imagem que selou um futuro.