
Menos Téte!
Pois é, “Menos Téte” foi uma expressão muito usada nos anos 1990 e no início dos anos 2000. Servia para frear exageros quando alguém tentava convencer os outros de que um fato inacreditável era exatamente assim: “Juro que foi bem assim!”.
O Téte, na verdade, se chamava Marcos, mas por carinho da família acabou rebatizado com esse apelido que pegou na escola, entre os amigos, e mais tarde no seu primeiro emprego.
Nosso personagem — verídico e verdadeiro — desde pequeno gostava de contar suas próprias versões das histórias que vivenciava... ou simplesmente daquelas que ouvia contar por aí. No início, as pessoas desconfiavam da grandiloquência dos relatos. Mas como ele era um adolescente simpático e divertido, deixavam passar.
Seu primeiro emprego foi em uma emissora de rádio da cidade, num tempo em que os computadores ainda engatinhavam nos setores de contabilidade. A empresa havia adquirido um “poderoso XP” e saiu à cata de alguém que pudesse aprender e operar a nova máquina. O então pretenso futuro cunhado do Téte — já que o namoro nunca vingou — o indicou para a vaga. André era funcionário importante da empresa, e a indicação pesou mais que o currículo.
Na entrevista, o Téte esbanjou “conhecimento” sobre o PC. Ganhou a vaga confessando ser expert... e, claro, por ser “apadrinhado”.
Contratado, os dias foram passando, e nada da esperada revolução tecnológica. Aos poucos, o Téte passou a realizar tarefas de secretaria ao lado da Tierla, e o computador foi ficando de lado, inútil no canto da sala.
Simpático e falastrão, ele logo conquistou a equipe. Se envolvia em quase todas as funções — menos, é claro, operar o tal PC.
As segundas-feiras eram sagradas para o Téte — e quase insuportáveis para a Tierla. Enquanto ela mergulhava nas duplicatas, caixas e notas dos clientes, ele preparava o chimarrão e começava a narrar as proezas do fim de semana.
Exagerado por natureza — às vezes por hábito, outras talvez por necessidade de chamar atenção — ele estradulava nas histórias.
Lembro de uma vez em que contou, com a maior cara de pau, que havia acertado um coelho com uma pedra... durante uma corrida de motos! Segundo ele, estava de um lado da pista, o coelho do outro, e bem no momento do arremesso, uma moto cruzou o trajeto. E arrematava com convicção:
— Vocês não vão acreditar, mas a pedra passou entre os raios da roda em movimento...
A Tierla, sem levantar a cabeça dos papéis, apenas fazia um gesto com a mão e repetia, já sem paciência:
— Menos, Téte! Menos, Téte...
O Téte então reformulava o final da história e encerrava com a frase clássica:
— Tirando isso, todo o resto é verdadeiro!
O bordão da Tierla se espalhou pela cidade. E mesmo depois de mais de 30 anos, a expressão sobrevive.
Ainda hoje, quando alguém exagera ou conta uma história duvidosa, sempre aparece um — velho ou novo — para interromper a narrativa com um sorriso e decretar:
— Menos Téte.