
Na época da ditadura militar, um cidadão aqui da região — de origem humilde, mas muito bem-sucedido no comércio — resolveu entrar para a política. Candidatou-se a deputado pela antiga Arena (Aliança Renovadora Nacional), com aquele discurso típico de superação à base de “trabalho, sacrifício e esforço”.
O “plutocrata mirim”, como alguns o apelidaram, saiu em campanha fazendo comícios por todo o interior. O que ele mais gostava de destacar era a sua trajetória de vida — e fazia isso com um sotaque carregado e frases que misturavam humildade e exagero na medida certa (ou errada).
Numa reunião no interior de Portela, diante de um grupo de coloninhos quietos e atentos, mandou a seguinte:
— Não se preocupem, não! Eu conheço “os tificuldades” de vocês... porque eu já fui “chinelão” que nem vocês!
E assim seguia, conquistando o povo mais pelo jeito do que pelo conteúdo.
Mas foi na Barra do Turvo que ele se superou. Subiu no palanque, ajeitou o microfone e soltou essa preciosidade:
— Eu “chá” fui um “bobre” e coitado como vocês! Eu e “meu” mulher não “tinha” nem coberta pra se cobri no inverno. Dormíamos, os “tois”, debaixo de saco de linhagem num “calpão”!
Fez uma pausa dramática e completou com a cereja do discurso:
— O outro “tia” era a coitada da Frau, que levantava toda coberta de pelos do saco!
Dizem que teve quem chorou... de rir. Mas também teve quem aplaudiu de pé. E o fato é: se elegeu. E muito bem, por sinal.