
Como esquecer o primeiro livro de crônicas que li do Luis Fernando Verissimo? Foi lá por 1976. Ele havia publicado, um ano antes, uma coletânea com textos que saíram nos jornais em que trabalhava até então. O livro se chamava O Popular — seu primeiro entre tantos — e era uma edição simples, em papel jornal, publicada pela Zero Hora.
Como esquecer o encanto com aquelas histórias bem-humoradas, em especial a crônica que dava nome ao livro? O Popular descrevia, com ironia e precisão, aquele personagem tão citado nas reportagens jornalísticas: “o popular fulano”. Mas, segundo Verissimo, o popular deixava de ser o popular no momento em que era entrevistado — pois, ao se manifestar, automaticamente transferia o título para o cidadão ao lado. Eu ria: era impossível entrevistar o popular.
Li aquele pequeno livro sentado à porta da pensão da dona Lúcia, na rua Coronel Niederauer, em Santa Maria. Foi lá que, com alguma acrobacia argumentativa, consegui convencer meu pai a me deixar cursar o segundo grau.
Depois de O Popular, vieram tantos outros Verissimos. Em especial, marcou época O Analista de Bagé e sua terapia do joelhaço. Os livros vinham intercalados com a leitura das crônicas diárias no jornal.
Claro que a admiração por Luis Fernando vinha também da referência literária que herdamos no colégio. Nos tempos ginasiais, ao falarem de literatura brasileira, alguns professores sempre destacavam, com toda justiça, o nome de Érico Verissimo — com suas obras imortais como Clarissa, Olhai os Lírios do Campo, O Prisioneiro e O Tempo e o Vento. Entre elas, sem razão muito clara, me marcou especialmente Senhor Embaixador. Talvez porque, naquela fase, eu começava a formar algumas interpretações políticas dos fatos.
Em 1981, já como repórter da Rádio Gaúcha, em Porto Alegre, fui escalado para cobrir — ao lado do colunista Juares Fonseca, da Zero Hora — a 11ª Califórnia da Canção Nativa, em Uruguaiana. Foi o ano de Desgarrados, a epopeia do gaúcho de pé descalço, apresentada por Mário Barbará e Sérgio Napp, e que levou o primeiro lugar.
Após a final, enquanto eu entrevistava alguns concorrentes — inclusive Barbará — me aproximei de Leonardo, antigo integrante dos Três Xirus, que havia empolgado o público com Céu, Sol, Sul. E foi nesse momento que chegou Luis Fernando Verissimo.
Conversamos, nós três, por mais de meia hora. Foi o ápice. Falar com aquele escritor que tanto me impressionara, como se fôssemos velhos conhecidos.
Depois disso, jamais tive uma interação tão próxima com ele. Lembro de alguns eventos culturais com sua presença, mas sempre à distância — separados pela natural diferença entre o repórter e o destaque do evento.