
Eu tinha oito anos de idade. E ele foi, sem dúvida, o meu melhor amigo. Seu nome era Xerife. Era enorme e lanudo — lanudo, como costumamos dizer aqui no Sul. Tinha o pelo branco, salpicado de manchas pretas.
Xerife ainda era um filhote quando nos foi presenteado por um casal de médicos que morava na esquina da nossa casa. Os únicos médicos da pequena cidade.
No início, ele era paparicado por todos. Mas, aos poucos, foi se aproximando de mim. Criamos um laço profundo. Brincávamos muito. Corríamos pelas ruas do bairro, apenas pelo prazer de correr. Onde eu ia, lá estava ele: no açougue do Werno, no mercado, sempre me acompanhando. Só não ia à escola, como se soubesse que aquele era um compromisso exclusivamente meu.
Quando eu brincava com os amigos, ele ficava a uma certa distância, observando. Só se aproximava se fosse chamado, e bastava um grito rápido — “Xeriiife!” — para ele vir todo faceiro.
À noite, embora quando filhote insistisse em dormir dentro de casa, Xerife permanecia do lado de fora. Mamãe, que cuidava de seis meninos, não tolerava mais sujeira ou bagunça dentro de casa. O cão, obediente e caseiro, dormia ou vigiava na soleira da porta. Nunca usou coleira nem corrente.
Certa tarde, enquanto mamãe — que adorava flores naturais — costurava na máquina da sala, resolvi matar a curiosidade. Queria ver de perto um vaso que a comadre Nadir havia lhe trazido pela manhã. O encanto com que as duas mulheres comentaram sobre aquela flor me intrigou. E ainda havia as recomendações de cuidado, ditas com solenidade.
Aproveitando o silêncio, exceto pelo barulho rítmico da máquina de costura, arrastei um banquinho e tentei alcançar o vaso sobre o armário. Com alguma dificuldade, subi e me espichei para ver melhor. Mas, no esforço, me desequilibrei. O único apoio que encontrei foi... a borda do vaso.
Não deu outra. Eu e o vaso despencamos. Caí dolorido, e ele, completamente despedaçado, espalhou terra e galhos pelo chão.
Mamãe veio correndo, assustada com o barulho. Primeiro se certificou de que eu estava bem. Depois, buscou a velha cinta do papai — aquela que pendurava na parede e era temida por todos os irmãos — e não pensou duas vezes. A surra começou.
Foi nesse momento que, instintivamente, me lembrei do meu amigo. Em meio a desvios e gritos, chamei com todo o fôlego:
— Xerife!!!
Ele veio como um raio, se jogando em cima de mim, como se quisesse me proteger. Mamãe, irritada e fora de si, continuou a "lição". Eu, esperto, abracei o Xerife e comecei a usá-lo como escudo.
O pobre cão, sem entender nada, começou a apanhar comigo. E foi só quando a raiva de mamãe arrefeceu e ela se comoveu com o sofrimento do cachorro que a surra terminou. Rindo, ela me advertiu:
— Da próxima vez, não vai ter Xerife pra te salvar!
Não demorou muito para eu aprontar outra. E o ritual se repetiu: a cinta, o grito, o apelo. Quando chamei meu amigo, ele veio correndo outra vez... mas dessa vez, ao chegar na porta da cozinha, travou. Escorregou dois metros no assoalho e ficou ali, parado, olhando a cena com um misto de latidos, choramingos e indecisão. Proteger o amigo ou escapar da tunda?
A cena do choro do Xerife foi tão marcante que, penalizada, mamãe resolveu me poupar do castigo.
Não me lembro de ter me despedido dele. Para que eu pudesse estudar em um colégio interno, tivemos que nos separar. Mas recordo bem que, nas férias de verão ou de inverno, o nosso reencontro era uma festa inesquecível.
Ah, e as histórias das surras com o Xerife viraram tradição na família. Já adulto, sempre que o assunto era cachorro, minha mãe — agora avó — fazia questão de contar aos meus filhos como um cão lanudo me salvou de muitas palmadas.