
Nos anos 70, as motos ainda engatinhavam nas pequenas cidades do interior. Uma loja de motocicletas era vista como negócio promissor — quase futurista — especialmente em nossa cidade, cercada por vilarejos ainda menores.
Foi de olho nessa novidade que o Ari e seu cunhado, Pedro, decidiram investir. Pedro entraria com o nome e o dinheiro — era dono de uma farmácia muito bem estabelecida e não podia se afastar do balcão. Aliás, naquele tempo, quando médicos eram raros no interior, o farmacêutico fazia às vezes de clínico geral, receitando tudo de dor de barriga a dor de cotovelo.
Já a gerência da loja ficou com o jovem Ari, figura muito querida na comunidade. Desde os 15 anos, era destaque como centroavante no futebol regional — um craque de bola e de conversa.
A revenda se instalou num prédio antigo bem no centro da cidade. A vitrine, ampla, exibia com orgulho meia dúzia de motos consignadas por um revendedor de uma cidade maior. A inauguração virou atração: gente vinha de longe só para olhar, sonhar e calcular se daria pra trocar o cavalo por um veículo de duas rodas.
Ari, que sempre gostou de um certo exibicionismo, passava boa parte do tempo posando com uma cuia de chimarrão na mão e os pés sobre a mesa de sua sala particular — o escritório da "diretoria", como ele gostava de chamar.
Numa manhã, dois homens engravatados entraram na loja com uma maleta na mão. Cumprimentaram a Nice, funcionária da loja, e pediram para falar com o gerente. Ari, atento ao movimento, percebeu que vinham tratar de negócios. Sem perder tempo, correu para a sua sala e, antes que os visitantes entrassem, agarrou o telefone — um velho aparelho herdado da farmácia do Pedro — e começou a simular uma ligação importante.
Queria impressionar.
Assim que Nice acompanhou os homens até a sala, Ari, com o olhar distante e ar de executivo ocupado, fez um gesto breve para que se acomodassem e seguiu falando alto ao telefone:
— Claro! Vamos comprar uma dúzia desse modelo, sim! Moto excelente!
— As vendas vão bem demais… Também, com os preços que a gente pratica, impossível não vender!
Enquanto isso, fazia gestos como quem diz “aguardem só um minutinho”, com um sorrisinho de quem está fechando negócio milionário. Após mais alguns segundos de teatro, colocou o telefone no gancho com firmeza e virou-se para os visitantes, inflado de importância:
— Pois não, senhores! Em que posso ajudar?
Um deles respondeu, seco:
— Nós somos da CRT. Viemos instalar o seu telefone. Pedido do senhor Pedro.
Silêncio.
Naquela época, os telefones eram raridade. A instalação era feita apenas com autorização e cronograma da Companhia Riograndense de Telecomunicações, estatal respeitada como repartição e temida como fila de banco.
Ari, ora o Ari... Não sabia onde enfiar a cara. O telefone que ele fingia usar, até cinco segundos antes, nem linha tinha.