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Noemia Lima: Um século de vivências em Tenente Portela

Com 105 anos de idade Dona Noemia tem muitas histórias para contar

Por: Jonas Martins
30/11/2018 às 17h23 Atualizada em 30/11/2018 às 17h32
Noemia Lima: Um século de vivências em Tenente Portela

A famosa Noemia, uma senhorinha de estatura baixa e largo sorriso é uma personagem emblemática de Tenente Portela. Muito conhecida por estar perambulando pelas ruas ou sentada junto aos amigos de coração - e infelizmente mendigos - na Praça do Imigrante, ela vive aos 105 anos seus vícios, amor e mostra que dentro da medida do possível, podemos ser felizes com muito pouco.  

A moça de trancinhas grisalhas junto ao parceiro e o cão de estimação recebeu essa repórter do Jornal Província na varanda de sua residência na tarde chuvosa na última quarta-feira (28). A moradia alugada, com pouca higiene e saneamento fica localizada atrás de prédios antigos na Rua Tupis, no centro. Mesmo com a precariedade, um pequeno arranjo natalino na porta e uma televisão de tubo mostram que ali mora pessoas simples e de bom caráter. Após conversar por cinco minutos, pego-me pensando talvez como o leitor, comparando as idades. Tenho 19 anos, e a Dona Noemia tinha 86 anos quando vim ao mundo. É no mínimo peculiar e fascinante pensar quantas coisas ela já prestigiou, conheceu durante todo esse período. 

O tempo

A família Lima é considerada uma das pioneiras no município. A afirmação foi feita em diversos livros como Notas e Contrastes da História de Tenente Portela, do jornalista Jalmo Fornari. Noemia pode um dos ramos da árvore genealógica, pois afirma ser prima de Varduga, um membro da linhagem dos Limas que produzia erva-mate por aqui. No Certidão de Nascimento e na Carteira de Identidade, consta que ela foi registrada em Tenente Portela no dia 24 de maio de 1913, tendo assim um século e mais 5 anos de existência. Morava no passado com os pais e irmãs, onde hoje seria o 

interior da cidade.

- Morava por ali onde é o Pinhalzinho com meus pais e 6 irmãs, inclusive uma já não está mais entre nós. Só converso com uma delas (irmãs) que mora em Portela, as outras perdi contato” – disse Noemia. 

Não recordasse dos detalhes da juventude, mas parece contente com o teto e vida atual que tem. A casa minúscula na Rua Tupis é um dos primeiros tetos fixos que Noemia conseguiu após sair da casa dos pais. A saída foi impulsiona com a perda dos progenitores, isso ainda antes dos 20 anos. Posteriormente viveu no Km 10, pelas ruas comendo apenas frutas e por último na Pedra Lisa já com o esposo. 

Vícios, saúde e muito trabalho

O gosto pela cachacinha e por “pitar” um cigarrinho seguem vivos durante quase 90 anos e são combustíveis diários da idosa. Com tanto alvoroço para manter a saú

de nos parâmetros para uma longevidade numerosa, ela mostra uma singularidade antagônica quanto ao assunto. É válido ressaltar que a periodicidade de exames e consultas pode ser duvidosas, mas é notável a disposição para uma vida considerada 

inapropriada para a idade. 

A memória faz sua afirmação ficar fraca quanto aos anos, mas dona Noemia diz que desde menina, ali por uns 10 anos, aprendeu a fumar e nunca parou. O cigarro modelo antigo, feito de fumo com folhas de caderno, acompanha a idosa nas lidas com a terra, nos finais de tarde e meias manhãs. A cachaça, recebe uma atenção especial, não sendo tão costumeira quanto o outro vício. 

- As vezes bebo, só um pouquinho (risos). Fumo direto meu cigarrinho enquanto vou fazer o que mais gosto, que é trabalhar, plantar minhas sementes”.

 

Trabalhou em dois ramos: cuidar de idosos e crianças e na agricultura. Fiquei surpresa ao ouvir que seu prazer é trabalhar, cultivar sua terra e ver o seu próprio alimento brotar da terra. 

- “Aqui (terreno) é minha lavoura. Tenho mandioca, abóbora, milho. Tudo meu, capinado com carinho. As sementes seco dentro de casa, tem vários potinhos. Fico o ano todo em função de plantar e colher, é um sustento.”

Mais de seiscentas likes 

Mesmo não tendo redes sociais, e até nem sabendo do que se trata fielmente, Noemia fez sucesso com mais de seiscentas curtidas obtidas em fotos publicadas na comunidade Imagens e Retratos de Tenente Portela somente neste segundo semestre do ano. Comentários de carinho não faltaram. 

Internautas na tarde de quarta-feira (28) enlouqueceram com a publicação do administrador da página, jornalista Jalmo Fornari. Ela com seu chapéu de palha enfeitado com um pedaço de tecido olhando fixamente para a câmera, enquanto em baixo sua carteira de identidade. “Saúde pra ela, tudo de bom”, “Ela cuidava de nós quando éramos crianças morava na nossa casa... amo, tenho lindas lembranças dela” foram alguns dos comentários feitos nas publicações.  

O amor

Há um ano casou pela primeira vez, no civil com Assis dos Santos de Paula, 57 anos. A disparidade de idade impressiona pois foram 48 anos para que o grande momento chegasse. O amor deles, pelos relatos feitos a nossa reportagem, deixa claro que a necessidade de cuidados fez com que os amigos impulsionassem a convivência estabelecida hoje. É mais cuidado, carinho e companheirismo, do que outros interesses que englobam os relacionamentos. 

- Um foi conquistando o outro, éramos sozinhos. Ela precisava de alguém para cuidar dela, fazer o mate e tomar nos fim de tarde. Pra preparar as comidas. Ela comia só bergamota e laranja pelas ruas. Eu precisava de companhia, então a 3 anos viemos morar juntos. – Disse Assis. 

Eles sonham um futuro juntos até o fim do caminho. Afirmam que buscam sempre ficar o mais longe de brigas, só querem o sossego de um lar e boa companhia para viver um dia de cada vez. Se pudessem pedir ao Papai Noel um presente mais almejado, sem dúvida seria um lar para chamar de seu. Uma casa deles para receber os vizinhos, parentes e amigos. Uma terra própria para cultivar, ter uma pequeninha horta. 

É com menos de uma aposentadoria, sentando na praça para olhar o nada, mas sem reclamar dos perrengues do dia a dia, que os dois evidenciam que a felicidade está na simplicidade e bondade de cada um. A vivencia deles é a prova prática da frase célebre do livro Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, “O essencial é invisível aos olhos, e só se pode ver com o coração.”

 

 

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