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O velório que espere

A morte do irmão do Malaquias de Tronqueiras

Por: Jalmo Fornari
16/12/2024 às 15h59
O velório que espere

Seu Peri Dorneles era um homem sempre disposto a ajudar as pessoas e as famílias nos momentos mais difíceis. Ele e o Higino chegavam a competir para ver quem puxava mais féretros, já que, naquela época, poucos tinham veículos e as funerárias ainda não eram equipadas.
Numa dessas ironias da vida, num sábado à noite, lá pelas dez horas, faleceu um dos irmãos do Malaquias, aquele que morava na primeira entrada à esquerda antes das Tronqueiras. O coitado deu seu último suspiro no Hospital Santo Antônio, que naquela época ainda era um casarão de madeira coberto com telhas de tabuinha.
Como era sábado e ninguém ficaria no hospital, o corpo do falecido deveria ser levado para a casa da família, que ainda nem sabia da morte do tio, irmão e cunhado. Tão logo soube do ocorrido, seu Dorneles, em companhia de um amigo, se propôs a levar o cadáver até as Tronqueiras para que os familiares providenciassem os preparativos do velório.
No seu velho e resistente Ford Bigode, como era chamado o modelo 29, ele e o amigo, com a ajuda de dois funcionários do hospital, ajeitaram o corpo precariamente no banco traseiro do veículo. Mesmo assim, era quase um luxo para a época e a região. Pegaram a estrada sacolejante rumo ao vilarejo. No caminho, encontraram um conhecido a cavalo, que informou que o irmão do morto estava num baile, a cerca de um quarto de légua adiante.
Como estava motorizado, seu Dorneles achou que não custava passar no salão. Mas, ao chegar lá, deparou-se com um baita fandango. Assim que entrou, avistou o irmão do morto agarrado numa pinguancha(*) e numa alegria contagiante. Resolveu esperar a música terminar para dar a má notícia, mas, enquanto isso, notou o olhar atrevido de uma morena encantadora em sua direção.
“Morto tá morto, que espere um pouco mais!”, pensou, e tirou a prenda que lhe lançava olhares para dançar.
Uma música, duas músicas, e assim foi o resto da noite. Era um baile e tanto! Seu companheiro de viagem também se encantou por uma gringa e, pelo visto, perdeu-se nos encantos da italiana. Dorneles flutuava nos braços macios e perfumados da morena, entre polcas, xotes, vaneras, milongas e tangos.
De repente, contra a vontade de todos, o dia começou a dar as caras, e o baile chegou ao fim. Foi só então que Dorneles lembrou do finado, que endurecia no banco traseiro do Ford.
Polido e com cara de consternação, aproximou-se do irmão do morto e, para não dar a notícia de forma abrupta, começou com uma pergunta casual:
— E então, o que achou do baile?
— Foi um dos melhores dos últimos tempos! — confessou o Malaquias, o futuro enlutado.
— E o teu irmão, sabes como tá? — provocou Dorneles.
— De mal a pior, coitado! Continua internado no hospital...
— Mentira! Morreu! — decretou Dorneles.
— Tá na minha caminhonete, o infeliz! Só não te contei antes porque seria covardia te fazer largar de um baile tão bom, sabendo que nada mais poderia ser feito.
Quem conheceu o Dorneles sabe: depois do baile, o morto foi velado sem caixão, em cima de uma porta. E o finado recebeu as mais honestas homenagens, ditas por seu Dorneles, que chorou decentemente pela sua memória e consolou os familiares. Segundo ele, contar da morte antes seria crueldade: afinal, o irmão do morto teria que acordar a mãe, a viúva e o resto da família em plena madrugada, e o baile, convenhamos, estava bom demais para isso.

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