O Pedrinho era uma referência de galanteador na pequena cidade. Discreto, como se exige de quem “come quieto”, vivia justificando sua fama de namorador. Bastava chegar à cidade uma família com filhas adolescentes ou um casal recém-casado, que o Pedrinho, sem se importar com as consequências, mas sempre agindo com discrição e muita cautela, dava um jeito de “tentiar” as moças.
Solteiro e sem “pintos para dar água”, ele passava o dia na oficina em que trabalhava, arquitetando planos para suas conquistas amorosas. Não era, de forma alguma, um homem bonito, mas era alto, forte e muito simpático. Prestativo e comunicativo, qualidades que contribuíam bastante para seus objetivos libidinosos com namoradas ou possíveis casos.
Certa vez, veio morar na cidade um casal que foi residir lá pros lados do campo do Miraguay. Mal colocou os olhos na mulher, uma morena baixa, mas muito bem formada, com seios firmes e avantajados, o nosso Pedrinho ficou embasbacado e, digamos, apaixonado. A mulher era casada, ele sabia, mas isso pouco importava.
Não levou muitos dias para ele descobrir toda a movimentação do marido e da esposa. O marido era motorista de caminhão, e ela, de fato, não era muito fiel, já que na primeira troca de olhares deixou o pretendente com esperanças vivas. Não demorou nem um mês, e, discreto e sutil, Pedro entrou na vida da bela Tânia.
Toda vez que o marido da dita viajava, à noite, esgueirando-se pelas ruas escuras e fazendo o possível para não ser visto, o Pedrinho ia se “aquerenciar” nos braços da moça. O marido, também um rapagão esperto, logo ficou desconfiado, uma vez que notou uma diminuição no “fogo” da companheira. Suspeitou de muitos mas em especial do Pedrinho pela fama que ele tinha e preparou uma emboscada. Fosse o Pedro ou quem quer que fosse, ele iria pegar no flagrante, dar uma surra e abandonar a Tânia.
Fez de conta que ia viajar: abasteceu no Posto do Elias, conversou alto no bar do Vivaldino Dias dizendo que ao final da tarde viajaria para São Paulo, mas não foi. Ficou escondido à espreita. À noite, como era de se esperar, chegou o nosso “Don Juan”, esgueirando-se pelo escuro. Mal havia se despido, enquanto a mulher se perfumava no banheiro, o marido da Tânia chegou em casa para o flagra. Pedrinho, numa agilidade digna de um recorde mundial em colocar calça, camisa e sapato, pulou uma janela e se embrenhou noite adentro em direção ao Manchinha. O marido, com o barulho do amante, saiu no encalço.
O rapaz traído estava armado e disparava seu revólver .32 em direção ao fugitivo. A mulher berrava na porta até os dois sumirem no escuro. De fato, a noite era negra e sem lua e, mesmo assim, o perseguidor não perdia o alvo no breu. Descarregou a arma. Todos os seis disparos passaram de raspão no Pedro, sem atingi-lo por centímetros, cada bala fazendo um zunido nos seus ouvidos. Meia hora depois, o perseguidor desistiu. O Pedrinho, a essa altura quase sem fôlego, cansado e ofegante, estava intrigado com a persistência e a pontaria do “traído”. Foi então que percebeu que, na pressa, quando abandonou a casa da amante, havia colocado a lanterna acesa no bolso traseiro da calça.
O marido nunca soube se quem era o "concorrente" e o Pedrinho nunca mais se aventurou a buscar entretenimento na baixada do Miraguay.