
Super Bonder
Era um tempo em que novidades e soluções tecnológicas milagrosas eram incorporadas ao dia a dia das pessoas com os mais inimagináveis objetivos. Um exemplo disso foi a famosa cola Super Bonder, que reinava absoluta no mercado dos adesivos milagrosos, antecipando um período em que surgiriam centenas de imitações.
Numa noite desses tempos — final dos anos 80 — eu e o Telmo tomávamos nossa cervejinha diária no bar Chalé, discutindo música, cultura e soluções que imaginávamos capazes de mudar o mundo.
Um amigo nosso, o Edegar, boêmio exagerado, cantador e tocador de acordeão na zona e nos inferninhos da vida, era um homem que perdia completamente as estribeiras quando exagerava na bebida, causando problemas principalmente em casa, onde vivia com a Lurdes e dois filhos. As leis de proteção às mulheres surgiriam décadas depois; por isso, relatamos o ocorrido dentro do contexto da época.
Perto de uma hora da manhã, quando a clientela do Chalé da Neide ficava mais seletiva, chegou o Edegar, afobado e nervoso, relatando mais um drama de sua conturbada vida familiar. Chamou-me para um canto e, em tom desesperado, começou a falar:
— Homem do céu, ainda bem que te encontrei! Preciso de um favor de irmão, e urgente!
Surpreso e sem entender o tamanho do desespero, pedi que explicasse melhor. Mas ele insistia:
— Teu pai tem a loja e vende aquela cola nova, a Super Bonder. Preciso que você vá lá e pegue um tubo para mim!
Era um pedido inusitado e difícil de atender. Eu trabalhava no jornal e mal tinha acesso à loja. Minha única proximidade era ainda morar na casa do meu pai. Perguntei o motivo de tanta pressa e preocupação.
— Homem, briguei com a Lurdes. Ela não queria me deixar sair de casa e, sem querer, empurrei ela. Caiu a dentadura da boca. Na confusão, pisei em cima e quebrou no meio! Ela ficou desesperada e disse que, se eu não resolvesse isso hoje, antes de sair para o trabalho, ia me denunciar na delegacia e nunca mais falaria comigo! Me ajuda, amigo!
Resumi o caso para o Telmo, deixei-o no Chalé com a promessa de voltar e fui até a casa do meu pai. Pé ante pé, para não acordar o seu Genuíno, entrei no quarto e peguei a chave no bolso da calça dele. Saí sorrateiro e fui até o prédio da loja. Depois de alguns minutos na penumbra da sala, encontrei a gaveta da Super Bonder. Peguei um tubo, coloquei no bolso e tranquei novamente a firma.
O Edegar me aguardava no carro. Voltei ao Chalé e disse que ele poderia me pagar outro dia — o que jamais aconteceu.
O remendo deve ter dado certo, porque, passados tantos anos, lembrando agora da história, não recordo que ele tenha se separado da Lurdes, nem que tenha voltado para dizer que a solução não funcionou.
Grande Super Bonder!
(Claro que o nome da fera e da vítima foram substituidos...KKK!)