
Minha mãe e minhas tias — Mesmo aquelas que viviam em outras pequenas cidades da região — tinham o costume sagrado de agendar visitas à casa do Nono e da Nona. Eles, filhos de imigrantes italianos, levavam uma vida quase nômade. Pobres e batalhadores, as ocupações do meu avô materno nunca foram suficientes para fixar a família por muito tempo num só lugar.
Essas reuniões familiares tinham um ritual próprio. As mulheres ocupavam sofás e cadeiras da sala, geralmente com algum bordado ou crochê nas mãos, e começavam a pôr a conversa em dia. Falavam de si — mas, com mais gosto, das outras. Era um tipo de atualização oral das relações, com capítulos novos a cada encontro.
Lembro que, ainda pequeno, eu tentava me infiltrar naquela sala de vozes femininas e risos abafados. Bastava eu cruzar a soleira para provocar uma leve perturbação no ar.
A primeira reação era sempre a mesma:
— Vai brincar lá fora com os outros — dizia alguma tia, sem desviar os olhos do crochê.
Mas, se o assunto estava bom demais, ninguém queria mudar de tema. Então, mudavam de idioma. A Nona, mamãe e as tias deslizavam suavemente do português para o dialeto vêneto — uma barreira linguística instantânea contra ouvidos curiosos.
Foi assim que ouvi, pela primeira vez, a expressão que virou senha nas nossas reuniões familiares:
— Gh’è ‘ncòra qualchedun co i pié s-calsi in sala!
(Tem alguém de pés descalços na sala!)
Era o alerta. E a frase virava risada.
A partir dali, era tudo em dialeto. Seguiam parlando de ciàcoe de la vita dei altri — falando das fofocas da vida alheia — enquanto eu e as outras crianças, do lado de fora, não entendíamos nada. Niente. Gnente.
Anos depois, já quase adolescente, ainda presenciava os mesmos encontros, agora com mate na roda, e os mesmos códigos velados. Se algum de nós se aproximava demais da conversa ou fazia cara de quem estava prestes a entender algo, vinha de imediato:
— Muda de assunto, que tem gente de pés descalços!
E a conversa virava nuvem. Invisível e inalcançável.
Talvez por isso a Nona e mamãe nunca tenham nos ensinado o dialeto. Guardavam o italiano como se fosse um véu — proteção da intimidade e das memórias entre mulheres. Mais tarde, já adultos, isso virou arrependimento. Lembro da mamãe dizendo ao meu irmão, que lutava pelo reconhecimento da cidadania italiana:
— Me dói não ter ensinado a vocês a língua dos nossos pais...
Não falamos o dialeto. Não sabemos ao certo quais histórias ali se contavam. Mas carregamos, com saudade limpa, o som das vozes, o riso abafado, o cheiro do café e o compasso das agulhas. Carregamos, sobretudo, a lembrança dos dias em que éramos meninos soltos pela casa.
E andávamos — felizes — de pés descalços.