
Era uma daquelas noites de terça-feira: frias, chuvosas e perfeitas para um carteado até altas horas no porão, onde ficava o bar do Ademir. Cirilo, um dos nossos parceiros, era famoso por ser o imã do azar; se algo ruim acontecia, ele sempre dizia que não poderia ser com mais ninguém, apenas com ele. Um exemplo clássico foi a história do acidente com a vaca que vitimou um motoqueiro na estrada de Miraguaí. O motoqueiro, teimoso como uma mula, decidiu ultrapassar em uma estrada poeirenta e acabou colidindo com o animal. Ao saber do ocorrido, Cirilo não se conformava:
— Quem mandou ultrapassar? O bicho estava esperando por mim!
Assim como essa, havia dezenas de histórias que faziam os amigos rirem na pequena cidade.
Naquela noite, lembrando da fama de Cirilo, os colegas de carteado resolveram pregar-lhe mais uma peça. Com o dia cansativo, Cirilo já tinha cochilado entre uma jogada e outra. Era como se ele tivesse um talento especial para dormir, bastando um leve toque para ele voltar ao jogo. Então, os amigos decidiram esperar o momento certo para agir.
Não demorou muito até que Cirilo finalmente pegasse no sono. Quando ele estava roncando mais alto que o barulho da chuva lá fora, um dos integrantes da mesa levantou-se, pé ante pé, e apagou as luzes da sala. Assim que tudo ficou na mais completa escuridão, ele cutucou Cirilo no braço e disse com a maior naturalidade do mundo:
— Vamos, vamos, Cirilo, é tua vez. Oito de ouro pra ti?
No escuro, Cirilo, assustado e desesperado, acordou. Batendo com toda a força o punho na mesa, gritou com seu português enrolado:
— Não, não! Pro meu azar ser completo, só me faltava essa: FIQUEI CEGO!
Enquanto os demais se esforçavam ao máximo para não rir e estragar o clima de pavor do pobre Cirilo, Ademir interveio:
— Deixe de bobagem, Cirilo. Oito de ouro serve ou você vai querer comprar outra no baralho?
A intervenção de Ademir fez Cirilo levantar-se do banquinho e quase virar a mesa na escuridão.
— Desta vez é sério! Só podia acontecer comigo! Tô cego de verdade!
Foi uma gargalhada só, e alguém acendeu as luzes. Quem assistiu à cena disse que o “alemão” quase enlouqueceu com a brincadeira e queria “matar” todo mundo.