
"Lá pelos anos 70, vigorava em todo o país a lei seca no dia 15 de novembro, quando eram realizadas as eleições legislativas. Na nossa região, escolhiam-se apenas deputados, senadores e vereadores, uma vez que o prefeito, o governador e o presidente eram nomeados. Os bares não podiam servir bebida alcoólica alguma. Os 'borrachos' que não se precaviam passavam maus bocados. Ainda hoje, a lei vigora em algumas regiões do país.
O Baitaca, um indivíduo que marcou época em sua trajetória na cidade, era um folclórico bebum da pequena comunidade. Ele não escondia sua diária preferência pela branquinha, e por isso não se permitia ficar em jejum nem naquele dia em que beber, teoricamente, era proibido. Baitaca, que será personagem de outras histórias, chegou quase aos 70 anos de idade em um porre só. Para ele, era inadmissível passar um dia de abstinência, mesmo que fosse dia de eleições.
Lá pelas 3 horas da tarde do dia 15 de novembro, lá estava o Baitaca, mais para lá do que para cá, sentado meio de lado com uma garrafa de pinga quase finalizada, em um dos cantos da Praça Tenente Bins, junto à pira do fogo da pátria. De repente, parou um carro com um sujeito desconhecido para ele. Era o doutor Guido Walter, que, além de titular da Comarca, exercia a função de juiz eleitoral. Ao ver o bêbado infringindo a lei no centro da cidade, a autoridade parou seu Corcel 73 amarelo junto ao passeio onde estava o Baitaca e desceu para tomar satisfação:
— Bonito, hein, cidadão. Onde você conseguiu essa garrafa de cachaça?
De soslaio, o Baitaca, sem divisar bem a fisionomia do homem, saiu com esta:
— Tá querendo beber, hein, 'granfino'? Então faça como eu fiz: campeie uma pra ti, que essa aqui é minha!"