
Um País de Contrastes – Parte Dois
As famílias dos proletários cubanos, em geral, vivem em velhas casas dos tempos da opulência do regime de Batista. Na cidade de Havana, existem poucos prédios modernos construídos após a Revolução Comunista. Nas proximidades da cidade, existem alguns enormes conjuntos habitacionais feitos dentro dos frios e feios padrões soviéticos. Conjuntos de apartamentos singelos, quadrados e monótonos, que nos lembram em Havana a proposta de erradicação de favelas apresentada há anos pelo ex-governador paulista Paulo Maluf. Tive a oportunidade de conhecer o conjunto “Pastorera”, onde visitei uma artista plástica aposentada. Os apartamentos são pequenos e funcionais. A cozinha com aparelhos antiquados e pesados, como as velhas pias de cimento-mármore, o banho com louças brancas sem tampo.
Havana, ou Habana para os cubanos, capital de Cuba, na verdade, não é apenas uma cidade com este nome e nem uma região metropolitana. É conhecida como “Ciudad de la Habana”, um conjunto de cinco cidades unidas, situadas na margem oeste do Porto a partir do extremo onde fica “El faro de los Reys”. Havana Velha (Habana Vieja) é um conglomerado de prédios antigos, alguns com mais de 300 anos, com becos e ruelas estreitas de um tempo em que por lá só circulavam carruagens e pajens levando senhoras em liteiras. A rodovia junto à orla tem muitos prédios deteriorados pelo tempo, alguns que já ruíram por falta de conservação, mas mesmo assim é magnífica. Hoje, devido ao fato daquela zona da cidade ter sido tombada como patrimônio histórico da humanidade através de uma resolução da UNESCO, dezenas de prédios estão sendo reconstruídos ou reformados com recursos internacionais, principalmente oriundos da Espanha.
Na cidade “Plaza de La Revolucion”, uma das partes de “La Habana”, local onde está a sede do Partido Comunista e os escritórios aonde Fidel despacha diariamente, há um bairro chamado Vedado. Neste bairro fica a clínica de tratamento de “retinia pigmentária”, Camilo Cienfuegos, e foi lá que permanecemos hospedados os 15 dias em que permanecemos no país. Vedado tem um patrimônio arquitetônico impressionante. Na parte limítrofe ao mar, existe um muro que separa a avenida do oceano, já que por ter o solo com a formação de corais, neste local não existe areia nem praia. O muro, construído para conter a fúria das águas, bem como a avenida que o margeia, recebe o nome de Malecon. Na sua proximidade, existem milhares de prédios que antigamente eram providos de muito luxo e requinte e que hoje, sem manutenção alguma, servem de moradias para os operários cubanos. Muitos destes antigos palacetes burgueses chegam a abrigar 4 ou 5 famílias. É mais um paradoxo socialista quando se vê estas construções monumentais com varais em suas sacadas e com os rebocos se desmanchando devido à ação do tempo.
O Jornal Granma, órgão oficial do comitê central do Partido Comunista de Cuba, publicação em espanhol, tem apenas 8 páginas e também é disponibilizado em Inglês, Francês, Alemão e Português, além de estar disponível na internet em www.granma.cu. É a melhor mostra do que é a imprensa no regime comunista. As notícias são apologias ao desempenho do comitê central do PCC, destacando tópicos literários e culturais de autores e artistas comunistas. Fidel é tratado apenas como “El Comandante en Jefe” na maioria das vezes, sendo reverenciado de todas as formas. Do resto do mundo civilizado, apenas são publicados tópicos de interesse do ideário comunista. Por exemplo, em janeiro, o que se destacava no Granma era o fracasso argentino e a frustração do povo com o capitalismo, o Fórum Mundial de Porto Alegre abordando temas comunistas em represália ao capitalismo. Os Estados Unidos aparecem sempre criticados. Junto à data e ao número do jornal, é lembrado que 2002 é o “Ano dos Heróis Prisioneiros do Império”, em referência aos cinco cubanos condenados por espionagem no final de 2001 nos Estados Unidos. Curiosamente, o Granma em espanhol custa 20 centavos de peso, algo menos de 1 centavo de dólar, e em Português, 50 centavos de dólar.
A Cuba dos cubanos, a que fica no subsolo da Cuba dos turistas, ainda vive o cotidiano de uma revolução que aconteceu há 43 anos. Qualquer coisa serve de motivo para demagogia ou intermináveis discursos ou entrevistas clamando unidade e persistência, feitos pelo Comandante em Chefe. A abertura de uma feira do livro, o aniversário do nascimento de um revolucionário da Sierra Maestra, uma manifestação do Bush, são eventos que justificam entrevistas de quase 2 horas em rede de TV local. Fidel fala como um artista, é carismático e envolvente. É diferente de qualquer coisa que se pode ver ou ouvir na política internacional. A gente o assiste como se assistíssemos a um documentário de história e de repente se apercebe que a entrevista não foi gravada em preto e branco e eventualmente ele fala de coisas que estão acontecendo no mundo. A gente volta à realidade e descobre que ele existe de fato.
O caso do menino Elian foi um ótimo prato para Fidel exercer sua retórica e reacender a polêmica, tão necessária para manter o comunismo presente entre os operários cubanos. O evento Elian rendeu inclusive a construção da praça antiimperialista, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, um espaço em Vedado, Ciudad Plaza de la Revolucion, junto ao Malecon, em que o PCC reúne milhares de funcionários públicos para ouvir Fidel ou o seu irmão Raul falando mal dos americanos. Agora, a moda para os publicitários do PCC é promover a nível nacional e internacional mobilização a favor da libertação dos chamados heróis prisioneiros do império, os 5 cubanos presos e condenados nos EUA em 2001 por espionagem.
Filas socialistas – El último
Em Cuba, as filas fazem parte do cotidiano das pessoas, assim como em muitos lugares do terceiro mundo. O curioso é que, ao contrário do que ocorre no Brasil, os cubanos aceitam as filas com naturalidade. As maiores filas acontecem no final da tarde nos terminais de ônibus e de "Camello", onde centenas de cubanos se aglomeram aguardando a sua vez de entrar no coletivo.
Um fato distingue o comportamento do brasileiro e do cubano que enfrenta uma fila. Aqui no Brasil, é comum ouvir críticas em relação ao serviço que está sendo servido, enquanto em Cuba, como não há concorrência nos serviços, o cidadão encara a fila como algo intrínseco ao seu dia a dia e reage com surpreendente educação ao fato. Ao chegar a um local onde deve se colocar na fila em Havana, você diz em voz alta "El último". Mesmo sem a disciplina de fila, alguém em algum ponto responderá "Jo" (Eu), e então você se posiciona no conglomerado de pessoas até que a pergunta seja feita novamente por alguém que chega, e você passa a posição de último da fila para ele. É estranho, mas funciona perfeitamente.
Há filas constantes para tomar sorvete na “Copélia” na Praça Havana Livre, filas no transporte, filas nos mercados e até filas em frente ao balcão de atendimento nas lojas. Para examinar um produto que está na prateleira, você pede pelo último e espera sua vez, às vezes por cerca de 20 ou 30 minutos. Como Cuba é comunista e não tem concorrência, ninguém tem pressa de atender o cliente. Em uma loja em que entrei para ver um frasco do perfume Alicia Alonso, fiquei 23 minutos na fila aguardando atendimento. Como a espera estava demorando demais, como bom brasileiro me pus a reclamar baixinho. Uma senhora que estava na minha frente se voltou e me pediu calma. "Senhor, deixa a atendente dar atenção à companheira!". A atendente estava conversando com uma cliente amiga sua e há mais de 5 minutos mostrava as cores dos esmaltes de unha disponíveis na loja.
Cinema Norte Americano
Embora a produção cinematográfica de Cuba seja incipiente e sem grandes destaques, existem muitos cinemas em Havana disseminando a cultura do imperialismo americano, tão execrada pelas autoridades locais. Eu assisti pelo menos duas sessões de cinema e, ambas as vezes, a casa estava lotada. Os filmes são definidos na fachada como "películas norte-americanas" e atraem centenas de jovens e velhinhos aposentados nas tardes dos dias de semana. Não existem trailers, e a fita não passa de um sistema precário, de pouca definição, em que são projetadas diretamente fitas de vídeo K-7 na tela grande da sala, possivelmente contrabandeadas através do México, já que os produtores americanos não exportam material para Cuba.
O preço varia de acordo com a cara ou, melhor, a origem do freguês. O cubano paga 2 pesos para assistir ao filme, e o turista, 1 dólar. Ninguém pede documento, a seleção é feita pelo sotaque, pela forma de vestir. Os filmes são novos, alguns sequer passam na TV a cabo aqui do Brasil. Por exemplo, há 20 dias assisti em Habana Livre "El molino rojo" com Nicole Kidman, filme que concorre ao Oscar neste ano.
Explicação:
As observações iniciais sobre as moradias e o cotidiano cubano destacam a convivência entre o passado opulento e o presente austero, marcado pela falta de manutenção nas estruturas antigas e pela aceitação resignada das condições impostas pelo regime. Essas observações foram colocadas no final para fornecer uma base contextual e permitir uma reflexão mais aprofundada sobre os contrastes sociais e culturais vivenciados em Cuba.