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Se eu fosse Deus

"Castigaria severamente quem comete injustiça. Porque a injustiça é o pior dos males."

Por: Jonas Martins Fonte: Jornal Província
22/02/2019 às 10h30
Se eu fosse Deus

Não tenho dúvida. Se eu fosse Deus, passaria fazendo milagres. De todo tipo. Colocaria pão na mesa dos que têm fome. Daria saúde, liberdade, paz e alegria a quem precisasse. Estaria sempre do lado dos mais fracos – pobres, doentes, idosos, crianças e mulheres vulneráveis. E livraria todos os animais do sofrimento provocado pelo homem, pois todos eles são mais fracos diante do homem. Quer dizer, diante da tecnologia manejada pelo homem, já que, numa disputa em igualdade de condições entre homem e animal, sem arma, sem veneno ou outro instrumento, os animais são mais fortes que os humanos.

Mas castigaria severamente quem comete injustiça. Porque a injustiça é o pior dos males.

O problema é que a injustiça já está incrustada na própria natureza humana. Faz parte da vida da maioria das pessoas.  Independentemente de gênero, classe social, cor, religião, ideologia ou estado de saúde. Então, como Deus, se quero punir a injustiça, já não posso ficar do lado de todos os mais fracos, pois nesse grupo também existem pessoas injustas. Um impasse.

Tenho ouvido todos os dias as pessoas mentirem em audiências judiciais. Algumas não mentem, é claro. Mas cada dia é menor o número das pessoas que não faltam com a verdade. A mentira já virou a regra. Por isso um jurista antigo afirma que “a prova testemunhal é a prostituta das provas”. E as mentiras que ouço todos os dias na sala de audiências, proferidas por ricos e pobres, jovens e idosos, doentes e saudáveis, religiosos e incrédulos, bandidos e inocentes, analfabetos e letrados, têm causado grandes injustiças. Logo, quem mente em juízo, com boa ou má intenção, é injusto.

Por causa de testemunhos mentirosos, bandidos são inocentados, e inocentes são condenados. Testemunhos falsos liberam injustamente devedores de pagarem suas contas, e levam à condenação por dívida quem nada deve.

Conheço um processo judicial em que uma pessoa pobre perdeu tudo o que tinha em favor de um grande empresário. Por causa de perícias e testemunhos falsos. Testemunhos prestados por pessoas “de bem” da sociedade. Quase vinte anos depois da sentença, quando se restabeleceu a verdade, o prejudicado já havia morrido. De doença que se agravou pelo desgosto por tamanha injustiça, é lógico.

Também conheço inúmeros casos de pessoas pobres que processam injustamente pessoas ricas. Quem já não ouviu falar de empregados que trabalham poucos dias numa atividade, processam o patrão e, por causa de mentiras de testemunhas, ganham a causa e recebem dinheiro como se tivessem trabalhado por trinta anos?! E quem não conhece histórias de atestados médicos falsos para receber salário sem trabalhar? Ou de pessoas absolutamente saudáveis aposentadas por invalidez?

Pensando bem, se eu fosse Deus, exterminaria todos os seres humanos da face da terra. Porque todos estão envolvidos com alguma forma de injustiça. Injustiça até mesmo por omissão. Sim, a ideia mais comum que nos vem à cabeça quando presenciamos um crime ou outra forma de violação de regras sociais é: “Não vou me meter nisso para não ficar de mal com esta ou aquela pessoa”. É apenas uma omissão, mas que contribui para o triunfo da injustiça.

Quem pensa que estou radicalizando, leia Êxodo 32.10. Deus diz a Moisés que decidira exterminar seu povo, para começar uma nova nação a partir da família de Moisés. Só não o fez porque Moisés suplicou que abandonasse a ideia.

E de Moisés para cá a maldade humana só tem aumentado. A injustiça se alastra como erva daninha.

Então não quero ser Deus. Vou é esforçar-me para nunca ser injusto. E continuar lutando contra toda forma de injustiça.

 

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Nilton Kasctin
Nilton Kasctin
Promotor de Justiça, professor universitário e defensor do meio ambiente e do direito e bem estar do ser humano. Nilton Kasctin dos Santos escreve quinzenalmente no Jornal Província
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