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Uma caminhada no jornalismo

Artigo publicado na ocasião da edição 1000 do Província .(2003)

Por: Jalmo Fornari
14/01/2026 às 18h53
Uma caminhada no jornalismo

Uma caminhada de mil passos…


Foram notícias de toda ordem, histórias de todo o porte. Fazer jornal não é fácil, ainda mais em uma cidade pequena, onde quem se julga autoridade também se julga intocável, vários centímetros acima de qualquer crítica e de qualquer informação que lhe desagrade. Ufa! Que atividade difícil! Em resumo, à primeira vista, ser empresário nesse ramo é, de um lado, a arte de cultivar desafetos e, de outro, a de criar puxa-sacos. Mas vale a pena, pelos desafios e pelas conquistas que, no fim, sempre são maiores que os obstáculos e os percalços.
Ao todo, foram mil edições impressas nessa longa história, seguramente mais de 15 mil páginas repletas de registros sobre as últimas três décadas de acontecimentos que marcaram a história de nossa cidade e de nossa região.
E pensar que o nome e o projeto do Jornal Província — que acabou se materializando — surgiram em uma tarefa de aula, nos tempos de faculdade de Jornalismo na PUCRS, quando a professora de Teoria da Comunicação, a saudosa Yara Bendatti, solicitou que cada aluno da turma elaborasse um projeto para um pequeno jornal. Desafiador e contestador, marcas da minha adolescência, apresentei um projeto inusitado chamado Província Kaingang. Lembro-me de ter ilustrado o “pasquim” sonhador com a pretensão de integrar uma região, questionar e apresentar alternativas de desenvolvimento. No entanto, esqueci-me de relatar quem financiaria a ideia… etc., etc. Por pouco — muito pouco mesmo — não levei bomba na cadeira acadêmica. A minha querida professora vaticinou que fazer jornal no interior, sem um projeto sólido de sustentação comercial, seria o mesmo que colocar na praça um jornal destinado a durar apenas algumas poucas edições.
Desculpe, professora. Sou teimoso. Chegamos à edição de número mil — claro, sem a roupagem do lucro capitalista, mas dentro de uma delicada e complicada artimanha de sustentabilidade. E seguimos por aqui.
Nesta trajetória, queiram ou não os inconformados com a linha editorial do Jornal Província, ele indiscutivelmente ficará para sempre na história de nossa cidade e de nossa região, até porque tudo leva a crer que o jornalismo gráfico impresso, em breve, como um todo, deverá se tornar uma página virada da história.
Algumas coisas, evidentemente — e felizmente — nos separaram de outros pequenos jornais. Nós, descaradamente, encampamos lutas pelo desenvolvimento da região, muitas vezes como uma voz isolada. Certa feita, nos tempos da governadora Yeda Crusius, um de seus assessores afirmou, em nota ao jornal, que, em 90 dias, uma estrada que já havia sido paralisada e reiniciada dezenas de vezes seria definitivamente retomada e concluída. A RST-472 já havia consumido quase uma boiada, só nos churrascos das autoridades durante os anúncios de suas inúmeras retomadas.
O Jornal Província, isolado no cenário, mas ainda crente na força da imprensa, iniciou uma campanha: em cada edição subsequente ao anúncio, estampávamos na capa uma cobrança em forma de contagem regressiva dos dias que faltavam para o cumprimento da promessa. Nas segundas-feiras, um exemplar do semanário era enviado à presidência do DAER e outro ao gabinete da governadora do Estado. Não se pode afirmar que o jornal tenha sido determinante, mas, em menos de 90 dias, a obra reiniciou e, finalmente, foi concluída.
As lutas por saúde e educação marcaram profundamente a trajetória do Jornal Província. Esses temas foram manchetes de dezenas de capas, mas nada nos marcou mais — ou nos custou mais caro — do que o empenho quase desesperado do jornal em ser arauto e parceiro de iniciativas que prometiam desenvolvimento e geração de empregos na região, especialmente em Tenente Portela. Jamais poderemos esquecer o episódio da “Pegada”, uma “pegadinha” na acepção literal da palavra.
No afã de nos associarmos a qualquer iniciativa que pudesse gerar expectativa de crescimento, embarcamos na canoa furada da “Pegada”, suposta indústria de calçados anunciada por alguns políticos locais. O entusiasmo era tanto que, por momentos, nos esquecemos do bom jornalismo, desprezando uma avaliação mais realista. No fundo, tudo não passava de uma tentativa desesperada de uma administração, já em seus estertores, de encontrar uma saída eleitoral, explorando a boa-fé popular — e o fanatismo de um jornal confessadamente tendencioso por alternativas de desenvolvimento.
Apesar de tudo, com erros e acertos, nesses mil números mantivemos a mesma cara e a mesma coragem, o mesmo humor e, por muitas vezes — por que não confessar? — o mesmo sarcasmo. Basta observar a coluna Dizem por aí, que diverte semanalmente centenas de leitores, ao longo de pelo menos três gerações. Num primeiro momento, as “fofoquinhas” provocam revolta nos citados, mas quase sempre essas reações se acomodam rapidamente.
É fácil falar do projeto gráfico, conservador e até obtuso. Desde a primeira capa, mantivemos uma coluna comercial à esquerda — uma homenagem de diagramação e de estilo ao Jornal do Brasil, que já nem existe mais. O logotipo, propositalmente arcaico e provinciano, entrou em férias por apenas umas quinze edições, numa tentativa frustrada de modernidade. Hoje, ele permanece o mesmo do primeiro exemplar, lançado com direito a coquetel, filmagens, convidados, discursos, cerveja de graça e tudo o mais, lá em 1986.
A data de lançamento do semanário, cuidadosamente escolhida, soou para nós como um protesto contra os anos de chumbo, quando a ditadura censurava a imprensa. Inauguramos o Jornal Província em 31 de março de 1986, já no governo de José Sarney, que tinha como ministro da Justiça um liberal que, paradoxalmente, ainda censurava filmes nos cinemas do país.
São mil edições de um pequeno e teimoso jornal de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, provando que nada é pequeno quando se pensa grande. O Jornal Província, que alcança esse número simbólico, sempre se arrastou entre várias gráficas, em busca de viabilidade econômica e qualidade técnica. Nos primórdios, quando as páginas ainda eram montadas manualmente, com letras recortadas uma a uma para compor os títulos, o jornal ganhava forma numa impressora offset plana, na Publipan, em Panambi. Como não lembrar dos originais, organizados em páginas quadriculadas chamadas “espelho”, levados pessoalmente à gráfica e, depois, carregados ao amanhecer de sexta-feira no fusquinha adquirido exclusivamente para essa tarefa? Tempos heroicos.
Depois, passamos a imprimir em Cruz Alta, depois em Ijuí, retornando mais tarde a Cruz Alta, onde permanecemos até hoje.
Franciscano em suas pretensões empresariais, o Jornal Província é hoje muito mais lido na internet do que em suas edições físicas. Ainda assim, foi pioneiro em muitas ideias e propostas de comunicação social na região. O semanário foi o embrião da Rádio Província FM, dos sites yucuma.com.br, clicportela.com.br, provinciafm.com, além de nossa presença no Twitter, no Facebook e em tantas outras redes sociais.
Nossos arquivos, hoje um enorme amontoado de papel jornal envelhecido, demonstram que o destino do jornalismo impresso parece ser abandonar o volume físico e, um dia, migrar inteiramente para o mundo virtual.
Enquanto isso não acontece, comemoramos nossas mil edições, recordando — sem ufanismo e sem mágoas — os bons e os maus momentos, as derrotas e as vitórias.
Por fim, mais importante do que tudo o que foi dito, é registrar, com vigor e de forma singular, uma carinhosa e sincera homenagem a todos aqueles — jornalistas, colaboradores, redatores, leitores, colunistas e editores — que, de uma forma ou de outra, deixaram impressa, ao longo desse período, ao menos uma frase, uma palavra, em uma das mais de 15 mil folhas de papel jornal desta história, que, com tudo, orgulhosamente faz parte de nossas vidas.
Por Jalmo Fornari

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Jalmo Fornari
Jalmo Fornari
Jalmo Fornari é diretor-proprietário do Sistema Província de Comunicação. Jornalista já atuou nos principais veículo de comunicação do Rio Grande do Sul, como as rádios Gaúcha e Guaíba. Também é advogado com pós graduação em direito previdenciário. Como político foi vereador em Tenente Portela por diversos mandatos, tendo ocupado por diversos momentos o cargo de prefeito. Nesta coluna você acompanha crônicas, textos e memórias.
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