
[A cidade da gente é como um filho. Chega um dia em que, sem mais nem menos, paramos para observá-lo, levamos um susto e chegamos à surpreendente conclusão de que ele está diferente: cresceu, está alto, de barba e quase se tornou um homem.
Com a cidade acontece algo parecido.
Quando nascemos em uma pequena cidade, tratamos as ruas próximas de casa como se fossem extensões do nosso quintal. São espaços para andar de carreto, aprender a pedalar, empinar pandorgas — que invariavelmente acabam enroladas nos fios de luz —, jogar futebol, brincar de esconde-esconde, de pega-pega e de tantas outras brincadeiras que preenchiam as tardes de nossa infância.
Depois, vamos crescendo e temos a impressão de que os nossos espaços diminuem. Na verdade, eles estão se modificando.
As ruas cobertas de poeira no verão e de lama nos dias de chuva, pouco a pouco, recebem calçamento. Os passeios ganham modestas calçadas. As casas de madeira, que ocupavam a parte da frente de quase todos os terrenos, vão desaparecendo. Em seu lugar surgem construções de alvenaria e, algum tempo depois, até edifícios começam a fazer parte da paisagem.
Acompanhamos essas mudanças quase sem perceber. Até que, em determinado momento, compreendemos que a pequena cidade de nossa infância já não existe. Ela permanece apenas como uma lembrança frágil, envolta na névoa embaçada do tempo.
Aquela cidade onde imaginávamos conhecer todo mundo — os professores, os colegas, o alemão do açougue, o balconista da loja de secos e molhados, os pais dos companheiros de escola, do catecismo e da primeira comunhão — ficou definitivamente no passado.
Hoje, já adultos, percorremos as mesmas ruas onde, não faz tanto tempo, transitavam carroças, Fuscas, Rural Willys e, aqui e ali, algum luxuoso Aero Willys. Agora, os automóveis ocupam todas as vagas disponíveis e atravessar a avenida, em determinados horários, exige atenção e oferece até certo risco.
O povoado transformou-se em vila. A vila tornou-se distrito. O distrito conquistou sua emancipação. E a cidade, com o passar dos anos e sem que percebêssemos claramente, foi crescendo. Talvez não tanto em população, mas certamente em estrutura, serviços e qualidade de vida.
As antigas casas de madeira da avenida central deram lugar a estabelecimentos comerciais. Novos bairros residenciais surgiram e, orgulhosamente, começaram a sair do chão os primeiros edifícios de oito ou dez andares, alterando para sempre o perfil urbano de Tenente Portela.
É claro que nada é perfeito ou definitivo. Ainda existem dificuldades, carências e antigos problemas esperando por soluções. Mas o resultado dessa caminhada revela a confiança de muitos, a dedicação de sucessivas gerações e a esperança, compartilhada por quase todos, de que é possível construir aqui um futuro melhor.
Durante muito tempo, o principal motor da economia foi a agricultura. A posição estratégica de Tenente Portela em relação aos municípios menores da região fortaleceu o comércio e consolidou a cidade como centro prestador de serviços.
E houve também o Hospital Santo Antônio.
Sim, o hospital acabou se transformando em um dos grandes impulsores do desenvolvimento local, justamente quando, no meu tempo, a maioria apostava na chegada de grandes indústrias. Estas, a bem da verdade, com exceção de algumas agroindústrias, nunca aportaram por aqui na dimensão que se imaginava.
O Hospital Santo Antônio seguiu outro caminho: cresceu, especializou-se, ampliou os atendimentos e transformou Tenente Portela em referência regional na área da saúde. Atualmente, emprega quase 700 trabalhadores nos mais diversos setores. Isso representa aproximadamente 5% de toda a população do município, incluindo crianças e idosos — uma dimensão econômica e social extraordinária.
São 71 anos de emancipação. Mais de sete décadas de trabalho, desafios, realizações e transformações.
Como o tempo passa!
A cidade que um dia foi o quintal de nossa infância cresceu. Está diferente, mais alta, movimentada e moderna. Como um filho que se torna adulto, talvez já não caiba inteiramente nos retratos antigos que guardamos na memória. Mas continua sendo nossa.
E, por mais que mude, ainda basta caminhar por uma rua conhecida, olhar uma casa antiga ou reencontrar um rosto familiar para perceber que, em algum lugar, sob o asfalto, os edifícios e o movimento dos automóveis, permanece viva a pequena Portela de nossa infância.


