
Era uma época em que o futebol profissional existia até nas pequenas cidades do interior do Rio Grande do Sul. A nossa região tinha o orgulho de contar com o Miraguai F.C., onde atletas com contrato-padrão da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) vinham jogar e morar na cidade para defender as cores verde e branca do clube.
Claro que, naquele tempo, os clubes — como muitos ainda hoje — não tinham caixa suficiente para bancar as despesas dos seus craques. Por isso, o famoso "jeitinho brasileiro" aparecia: o jogador recebia como pagamento um emprego no banco estadual ou na prefeitura municipal.
Mesmo assim, o time vencia. E projetava o esporte “profissional” do município em toda a região. Por aqui, havia pelo menos três equipes nesse formato: o TAC (Três Passos Atlético Clube), o Tupy de Crissiumal e, claro, o Miraguai.
Mas o sucesso exigia voos mais altos — e viagens mais longas. Depois de uma excelente campanha em 1966, quando conquistou o título da Primeira Divisão Profissional da região, o Miraguai passou a enfrentar equipes mais fortes e mais distantes: o AESA de Santo Ângelo, o São Luiz de Ijuí e a Sociedade Esportiva São Borja, entre outras.
E foi justamente numa partida contra o São Borja que se passou este causo.
O jogo era decisivo. O São Borja, cidade fronteiriça, fica a 370 km de Tenente Portela. Mesmo sendo “profissional”, o clube não tinha condições para bancar hospedagem. A solução: sair de Portela às 2h da madrugada de domingo e chegar a São Borja por volta das 10h ou 11h da manhã — dependendo das condições das estradas e do humor do ônibus da empresa Sertaneja.
Seria uma odisseia. Viagem noturna, desconfortável, em estradas esburacadas. Preocupada com o desgaste dos atletas, a diretoria se reuniu. E então, surgiu a ideia “brilhante” do Dr. Marcos, colaborador da equipe:
— A saída é dar um estimulante antes do jogo. Eu consigo na farmácia do seu João Rosa Lopes ainda hoje. A gente dá um comprimido pra cada jogador logo depois do almoço, e eles vão correr que é uma beleza!
A proposta — embora nada ética — foi aceita com entusiasmo.
Dito e feito. A viagem foi longa, cansativa e quente. Perto das 11h, o grupo — jogadores, treinador, auxiliar e diretoria — desembarcou do velho ônibus modelo "Bicampeão", da Carrocerias Eliziário. O almoço foi servido, e o Dr. Marcos distribuiu as pílulas “milagrosas”.
Às 15h30, o estádio Vicente Goulart (o “Vicentão”) estava quase lotado. O Miraguai era respeitado, e a partida era decisiva para o time da casa. Foguetes estouravam, a torcida gritava. Entraram em campo as duas equipes, sob um sol escaldante e com a temperatura nas alturas.
Cinco minutos de jogo. O primeiro atleta do Miraguai correu pela lateral e esticou o braço para pegar uma garrafa d’água. Logo outro fez o mesmo. Em quinze minutos, o time já perdia por 3 a 0. Todos os jogadores queriam água — muita água. Parecia que estavam atravessando o Saara a pé.
A essa altura, a torcida levantava, desconfiada. Alguns jogadores caíam no chão mesmo sem falta. Outros caminhavam cabisbaixos, de passo lento, enquanto o São Borja dominava o jogo com facilidade.
Parecia que já era final de segundo tempo, mas era só o primeiro.
O placar no intervalo: 10 a 0.
No vestiário, os jogadores imploravam por água, com câimbras, tremores e tonturas. Alegaram não ter condições de voltar. E não voltaram. O Miraguai desistiu da partida por WO, rendido pelo calor, pelo cansaço e — muito provavelmente — pelo tal “estimulante”.
No caminho de volta, silêncio. Doze horas em um ônibus abafado, interrompidas apenas por pedidos de parada: ou pra ir ao banheiro ou pra tomar água.
Lá no fundo, isolado no último banco, Dr. Marcos viajava cabisbaixo, pensativo e suando mais que todos. Em silêncio, refletia:
— Será que errei na dose, no remédio... ou na marca?