
Dorneles e a trilhadeira do carteado
📍 Histórias da Portela Antiga
✍️ Por Jalmo Fornari
O Dorneles foi, sem dúvida, uma das figuras mais marcantes da velha Tenente Portela. Direto, impulsivo e incapaz de engolir desaforo, foi criado nas bandas da Esquina Colorada, onde o pai era inspetor de quarteirão — até que uma tragédia familiar mudou o rumo de tudo: o assassinato do pai encerrou precocemente sua vida militar.
De volta ao interior, hospedado no hotel da dona Edi e dividindo quarto com o compadre Lucídio, Dorneles passou a se dedicar à política — era brizolista de carteirinha — e às vendas de rádio nas colônias, pilotando seu Ford 1929, a famosa “fubica”.
Mas o que mudou sua vida mesmo foi o carteado.
Num desses jogos, enfrentou um vendedor da recém-nascida fábrica de máquinas agrícolas SLC, de Horizontina. O homem perdeu feio na mesa e, sem o dinheiro em mãos, prometeu pagar tudo parcelado. E pagou — tostão por tostão. Ao se despedir, entregou ao Dorneles um maço de propagandas de trilhadeiras:
— Vai que tu vende uma por aí... o pessoal tá comprando que é uma beleza!
No domingo seguinte, no churrasco da Linha Jaboticaba, Dorneles contou a história aos amigos. Mal terminou, Meneghetti pediu pra ver os panfletos — estava de olho numa máquina dessas fazia tempo.
Minutos depois, tinha vendido três trilhadeiras.
Na volta pra casa, fez as contas: tinha lucrado em um único domingo mais do que em seis meses vendendo rádios. Ligou para Horizontina, confirmou as vendas… e o resto virou história.
Vieram os motores Branco, depois os Wisconsin, mais tarde os arados, tratores e até automotrizes. A parede do escritório virou galeria de fotos com compradores e prêmios por desempenho.
Dorneles nunca gastou tudo o que ganhou — mas com certeza acumulou um montão de causos e uma fama que atravessa gerações.
🎴 Tudo começou com uma partida de cartas...