
O Passarinho enlouqueceu
Era um tempo de disputas políticas ferrenhas na pequena cidade.
Durante muitos anos, Tenente Portela esteve entre os municípios considerados de interesse da Segurança Nacional, condição que retirava dos eleitores a escolha direta do prefeito. A Lei nº 5.449, de 1968, incluiu expressamente o município nessa relação; somente em dezembro de 1984 ele foi descaracterizado dessa condição, abrindo caminho para a retomada das eleições diretas.
Até então, os eleitores podiam escolher seus vereadores, mas não quem comandaria a Prefeitura.
A democracia municipal voltou devagar.
Na primeira eleição direta daquela nova fase, ainda havia o entusiasmo e a surpresa da novidade. Na segunda, retornou ao Executivo um antigo prefeito nomeado que havia conquistado a estima de parte significativa da população. Na terceira eleição, porém, o caldo entornou.
Era 1992.
Pelo que guardo na memória, apareceram nada menos que cinco pretendentes ao cargo maior da pequena cidade.
A campanha foi disputadíssima.
Ao final, venceu Nilton Luiz Pereira, que assumiria a Prefeitura em 1993 tendo como vice Ildo Scapini. Os registros históricos do Município confirmam a gestão Pereira–Scapini naquele período.
Nilton vinha do meio empresarial e comercial. Scapini era professor, homem muito ligado ao interior e já trazia experiência como vereador.
E trazia também um apelido.
Passarinho.
O apelido havia nascido anos antes, justamente na estreia de Scapini no Legislativo Municipal.
Entre suas primeiras proposições como vereador, apresentou uma ideia bastante original para aqueles tempos: realizar, nas escolas, um concurso para a construção de casinhas de passarinhos, com incentivo e tutela do poder público.
A proposta podia ter até objetivos educativos e de preservação das aves.
Mas política de cidade pequena possui uma característica implacável:
uma ideia pode virar apelido.
E apelido, depois que pega, ninguém mais consegue revogar.
A partir dali, o professor virou Passarinho.
E Passarinho ficou alimentado também pela compleição física do Professor.
Quando chegou à vice-prefeitura, talvez muita gente já nem lembrasse direito da proposição que dera origem ao nome.
Mas do apelido ninguém havia esquecido.
Prefeito e vice, porém, não demoraram muito para demonstrar que tinham estilos bastante diferentes.
O prefeito circulava pela cidade e pelo interior a bordo de uma Chevrolet cabine dupla, veículo que, naquela época, ainda representava certo luxo.
Visitava comunidades.
Participava de reuniões.
Viajava à Capital.
O vice preferia demonstrar um estilo mais simples.
Talvez simples demais.
Certa vez, resolveu visitar comunidades do interior utilizando uma carreta puxada por bois.
Era uma espécie de demonstração prática de proximidade com o homem do campo.
A iniciativa quase lhe custou mais do que votos.
Lá pelos fundões do Lageado Leão, a parelha disparou.
E o passeio administrativo quase terminou em acidente.
Depois daquele dia, talvez até os bois tenham concluído que política era coisa complicada demais.
Assim, entre caminhonete de um lado e carreta de bois do outro, a relação entre prefeito e vice seguia aos trancos e barrancos.
E a distância entre os dois aumentava.
Até que terminou o primeiro ano da administração.
O prefeito resolveu tirar alguns dias de merecidas férias.
Destino:
Tramandaí.
Ou, para dar um pouco mais de importância à viagem:
Tramandaí Beach.
Arrumou as malas.
Colocou a família no carro.
E pegou a estrada para o litoral.
Como determinava a sucessão natural, o comando do Município ficou temporariamente nas mãos do vice-prefeito.
Do professor.
Do Passarinho.
O carro do prefeito praticamente ainda levantava poeira na saída da cidade quando o novo mandatário resolveu começar sua administração.
Convocou imediatamente todos os secretários municipais para uma reunião.
Os homens chegaram imaginando tratar-se provavelmente de algum ajuste de rotina para o período das férias.
Sentaram.
O prefeito em exercício foi direto.
— Estão todos demitidos.
Imagino o silêncio.
Um olhando para o outro.
Outro tentando descobrir se havia entendido direito.
Até que alguém perguntou o que estava acontecendo.
Passarinho explicou sua lógica:
— Secretário é cargo de confiança. Vocês são da confiança do prefeito. Agora quem está governando sou eu. Vou nomear os meus.
E havia um detalhe.
Ele não estava improvisando.
Já tinha tudo planejado.
No bolso levava a relação dos novos colaboradores.
E começou a anunciar os substitutos.
Uma das escolhas provocou ainda mais espanto.
Para a área da Saúde pretendia nomear justamente um conhecido líder da oposição, talvez o homem que mais criticava o atendimento realizado pela administração naquele setor.
Pronto.
A notícia saiu do gabinete.
E numa cidade pequena notícia política não corre.
Voa.
Começou a barafunda.
Telefone daqui.
Conversa dali.
Secretário querendo saber se estava mesmo demitido.
Outro querendo descobrir quem iria assumir seu lugar.
Funcionário procurando entender quem mandava.
E o prefeito?
O prefeito seguia tranquilamente pela estrada.
Rumo a Tramandaí Beach.
Naquele tempo não havia celular.
Não existia WhatsApp.
Não havia mensagem chegando a cada cinco segundos informando que sua administração estava sendo desmontada enquanto ele viajava.
Um dos mais inconformados era Ademar, titular da Administração.
Ele precisava localizar o prefeito.
Descobriu o hotel onde a família ficaria hospedada em Tramandaí.
O Hotel Beira-Mar.
Ligou.
Nada.
O prefeito ainda não havia chegado.
Ligou outra vez.
Nada.
Mais tarde, de novo.
E outra.
E outra.
O dia foi passando.
Dizem que Ademar chegou perto de trinta telefonemas para o hotel.
O pessoal da recepção provavelmente já estava começando a ficar preocupado com a Prefeitura de Tenente Portela sem jamais ter colocado os pés na cidade.
Só no meio da noite o carro finalmente chegou.
O prefeito estava exausto.
Horas de viagem.
Família cansada.
Malas ainda no carro.
Provavelmente imaginava apenas um banho, alguma coisa para comer e uma boa noite de sono antes de começar as férias.
Na recepção veio a notícia:
— Prefeito, tem um senhor chamado Ademar tentando falar com o senhor. Ligou umas trinta vezes.
Trinta vezes?
Coisa boa certamente não era.
O prefeito procurou um telefone e retornou.
— Alô, Ademar! Acabo de chegar no hotel, morto de cansado. O seu João aqui da portaria disse que você ligou umas trinta vezes me procurando! O que aconteceu, homem do céu?
Do outro lado da linha, Ademar não gastou tempo com explicações preliminares.
Foi direto ao assunto:
— Prefeito! Pelo amor de Deus, nem descarregue as malas! Volte imediatamente!
Silêncio do outro lado.
— Mas o que aconteceu?
E então veio a frase que atravessaria os anos:
— O Passarinho enlouqueceu!
Depois explicou.
Secretários demitidos.
Novos nomes escolhidos.
Adversários convidados para entrar no governo.
Uma administração inteira mexida em poucas horas.
E tudo isso antes de o prefeito conseguir sequer colocar os pés na areia de Tramandaí.
Não sei como ele dormiu naquela noite.
Se é que dormiu.
O fato é que as férias acabaram antes mesmo de começar.
As malas que nem tinham sido descarregadas permaneceram no carro.
No dia seguinte, em vez da praia, o destino voltou a ser Tenente Portela.
Era preciso apagar o incêndio.
E conversar com o Passarinho.
O vice continuou vice.
Mas, pelo que ficou na lembrança daqueles tempos, aquela experiência também ensinou uma coisa ao prefeito.
Dali em diante, toda vez que pensasse em sair de férias, provavelmente teria dois cuidados:
conferir se havia colocado todas as malas no carro...
e levar junto a caneta das nomeações.
Porque prefeito também aprende.
E, naquela administração, aprenderam que um Passarinho podia até construir casinhas para seus semelhantes.
Só não era prudente deixá-lo sozinho tomando conta do ninho.