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Filho da PUC

O bicho “Tartaruga”

Por: Jalmo Fornari
08/09/2026 às 10h50
Filho da PUC

Filho da PUC

Não tenho dúvida de que alguns dos melhores anos de nossas vidas começam logo depois da adolescência.

Para mim, começaram com uma espécie de grito de independência. Relativa, é claro. E com uma liberdade também um tanto vigiada, a bem da verdade.

Tudo começou quando, depois de usar todos os subterfúgios possíveis, fazer promessas, apresentar planos e insistir até onde pude, consegui convencer minha família de que deveria cursar o segundo grau em Santa Maria, a famosa cidade universitária.

Não foi exatamente um projeto autônomo nem uma aventura às mil maravilhas.

Talvez justamente por isso tenha sido tão marcante.

Meus pais nunca haviam permitido que nenhum dos meus irmãos alçasse voo daquela maneira. Pelo que lembro, talvez nem eles tivessem cogitado algo semelhante. Mas eu carregava uma inquietação, uma vontade enorme de conhecer o mundo para além dos limites da nossa pequena cidade.

Então planejei.

Argumentei.

Prometi.

E, bem ou mal, o plano deu certo.

Foram três anos cursando o segundo grau em Santa Maria.

E vivendo, pasmem, com praticamente um salário mínimo por mês.

O dinheiro dava para pagar uma modesta república estudantil — uma das tantas espalhadas pela cidade — e pouco mais.

Muito pouco mais.

Mas naquela idade a gente possui uma estranha capacidade de fazer caber o mundo dentro de um orçamento impossível.

Eu conhecia a cidade.

Andava.

Descobria lugares.

Fazia amigos.

Arriscava viver.

Meu pai, depois de ouvir as dezenas de promessas que fiz para conseguir sua autorização, estabeleceu uma condição definitiva:

— Se pegar um exame, volta para casa.

Isso mesmo.

Um exame.

Se acontecesse, terminaria a aventura e eu voltaria para fazer o curso técnico, como haviam feito meus irmãos.

Portanto, reprovar não era uma alternativa.

E não foi difícil cumprir a promessa.

Estudava, mas principalmente lia.

Meu Deus, como eu lia!

Antes de dormir, devorava livros.

Passaram pelas minhas mãos Agatha Christie, Graciliano Ramos, Pablo Neruda, Vinicius de Moraes, Érico Veríssimo e tantos outros. Vieram também aqueles autores que a gente descobria e carregava durante algum tempo como se fossem amigos íntimos.

Eram dezenas, talvez centenas de livros.

Emprestava nas bibliotecas.

Outros comprava para levar para um dos meus irmãos, aproveitando as idas à Livraria do Globo.

Mas havia uma condição não declarada:

antes de entregar, eu lia.

Assim passaram os três anos.

Entre livros, aulas, descobertas, amigos e, naturalmente, algumas namoradas.

Umas passaram.

Outras ficaram guardadas naquele arquivo misterioso chamado memória.

E algumas, mais de meio século depois, ainda aparecem de vez em quando curtindo alguma postagem minha no Facebook ou no Instagram.

A vida também sabe fazer suas brincadeiras.

Terminado o segundo grau, comecei a arquitetar um salto maior.

Queria continuar estudando.

Agora em Porto Alegre.

Mas havia um problema.

Como explicar isso em casa?

Foi então que nasceu um novo plano.

Ou, admito hoje, um pequeno golpe.

Disse que queria cursar Arquitetura.

Naqueles tempos, o curso que pretendia fazer só existia, para minhas possibilidades, na Capital. Era uma justificativa respeitável, sólida e, sobretudo, aceitável para a família.

A verdade?

Eu queria mesmo era Comunicação Social.

Talvez teatro.

Mas dizer em casa que pretendia sair do interior para virar jornalista ou ator não parecia exatamente a maneira mais segura de conquistar apoio familiar.

Arquitetura soava muito melhor.

Fui para Porto Alegre e me inscrevi no vestibular da UFRGS.

Até hoje lembro da dimensão daquele concurso. Havia mais de 23 mil inscritos no total e Arquitetura, atrás apenas de cursos como Medicina, estava entre os mais disputados, com mais de vinte candidatos por vaga.

Na PUC, entretanto, fiz aquilo que realmente queria.

Inscrevi-me em Comunicação Social.

Passei sem maiores dramas. Fiquei entre os primeiros colocados — lembro do número 9 — o que ainda me dava alguma vantagem na época das rematrículas.

Estava dentro.

Agora faltava um pequeno detalhe:

como pagar?

Com o dinheiro que recebia era impossível viver em Porto Alegre e ainda bancar uma faculdade particular.

Comecei então a procurar emprego.

Mandava cartas de apresentação para tudo quanto era lado. Agências, jornais, empresas, onde houvesse uma possibilidade.

Nada.

O pavio já estava chegando ao fim quando apareceu uma oportunidade de freelancer numa agência de publicidade.

Aceitei.

Ajudei na produção de uma publicação promocional ligada ao lançamento do Dodge Polara para o mercado gaúcho.

Não era ainda o grande jornalismo que eu imaginava.

Mas já era comunicação.

E pagava algumas contas.

A faculdade, por sua vez, começou com uma profecia.

Na festa dos bichos, no saguão da FAMECOS — Faculdade dos Meios de Comunicação Social, os calouros recebiam suas faixas.

Na minha estava escrito:

“Bicho Tartaruga”.

Não poderia ter sido mais apropriado.

Um curso previsto para quatro anos levou exatos seis para eu concluir.

E nem posso reclamar da tartaruga.

Culpa minha.

Desculpas, naturalmente, nunca faltaram.

Logo nos primeiros meses consegui uma vaga de estagiário no Diário de Notícias.

E aquilo mudou tudo.

De repente, o que eu estudava na faculdade estava acontecendo na minha frente.

Havia reportagem.

Redação.

Entrevista.

Rua.

Notícia.

Prazo.

Fechamento.

Como convencer um jovem jornalista de que deveria abandonar uma reportagem porque havia aula?

Na minha cabeça, a resposta era muito simples:

a reportagem não podia esperar; a aula, sim.

A aula poderia ser recuperada.

No próximo semestre.

Ou, se necessário, no ano seguinte.

Foi assim que a tartaruga começou sua caminhada.

O estágio no Diário de Notícias durou até o fechamento do jornal. Depois vieram outras oportunidades, empresas maiores, emissoras importantes e experiências que foram me empurrando, definitivamente, para dentro do jornalismo.

Até que, em determinado momento, inventei outra coisa:

resolvi que queria fazer política.

Larguei oportunidades, deixei a Capital e voltei para o interior.

Voltei para casa.

Mas havia uma coisa da qual eu jamais conseguiria me afastar.

O jornalismo.

Aliás, olhando agora para trás, descubro que aquela escolha feita quase escondida da família acabou decidindo boa parte da minha vida.

A Arquitetura ficou apenas no argumento utilizado para chegar a Porto Alegre.

A Comunicação virou profissão.

E a faixa de “Tartaruga”, pensando bem, também tinha razão.

Demorei seis anos para sair da FAMECOS.

Mas já faz meio século que não consigo sair do jornalismo.

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Jalmo Fornari
Jalmo Fornari
Jalmo Fornari é diretor-proprietário do Sistema Província de Comunicação. Jornalista já atuou nos principais veículo de comunicação do Rio Grande do Sul, como as rádios Gaúcha e Guaíba. Também é advogado com pós graduação em direito previdenciário. Como político foi vereador em Tenente Portela por diversos mandatos, tendo ocupado por diversos momentos o cargo de prefeito. Nesta coluna você acompanha crônicas, textos e memórias.
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