
O ano era 1977.
Impossível esquecer.
Eu recém havia ingressado na faculdade de Jornalismo e, poucos dias antes, conseguira também uma vaga na CEUPA — Casa do Estudante Universitário de Porto Alegre.
Conseguir moradia ali não era simplesmente aparecer com uma mala debaixo do braço.
Havia vários pretendentes e pouquíssimas vagas. Antes de ser aceito, precisei enfrentar uma espécie de vestibular dentro do vestibular: uma longa sabatina feita pelos veteranos da Casa.
Meu padrinho era o Sampaio, que anos depois se formaria em Medicina e dedicaria a vida a cuidar de pessoas.
Perguntaram de tudo.
O que eu achava de Brizola.
Qual era minha opinião sobre o presidente da República.
Por que queria morar numa casa de estudantes.
O que pretendia fazer na universidade.
E, naturalmente, chegou também uma das perguntas fundamentais para qualquer gaúcho:
— Para que time tu torce?
Aquilo, dependendo da resposta, talvez fosse até mais perigoso que política.
No final do dia, o próprio Sampaio veio dar a notícia:
eu havia sido aceito.
Comemoramos.
Mas havia um detalhe.
Eu não ficaria na casa da Sarmento Leite, onde ele morava e onde estavam alguns dos poucos estudantes que eu já conhecia.
Meu destino seria a casa da Rua José do Patrocínio.
A famosa “Zé”.
Naquele tempo, a CEUPA mantinha três casas próximas umas das outras. Duas masculinas e uma feminina, embora já começassem a surgir movimentos que questionavam aquelas separações e defendiam casas mistas.
Para um guri vindo do interior, tudo aquilo era novidade.
A faculdade.
Porto Alegre.
A vida comunitária.
As discussões políticas.
A liberdade.
E aquela sensação maravilhosa de que, finalmente, eu estava entrando no mundo.
Morando na Zé e recém começando meu estágio no Diário de Notícias, recebi na faculdade uma tarefa aparentemente banal.
O professor de Fotografia, mestre Chandon, determinou que cada aluno produzisse uma série de imagens de algum prédio antigo de Porto Alegre.
Não tive dúvida.
Por comodidade, mas também porque considerava o prédio bonito e interessante, escolhi uma construção localizada praticamente ao lado da CEUPA.
Era a antiga sede do Clube Farrapos — Clube dos Oficiais da Brigada Militar, que funcionava na Rua José do Patrocínio, número 534, na Cidade Baixa.
O prédio abrigava, desde aquela década de 1970, a segunda sede do Clube Farrapos.
Era uma construção antiga, com uma fachada que ainda guardava características das residências urbanas de famílias de classe média e alta das décadas anteriores.
Para um trabalho de fotografia, parecia perfeito.
E ficava a poucos metros de onde eu morava.
Peguei a câmera e comecei.
Enquadrava a fachada.
Procurava ângulos.
Fotografava portas.
Janelas.
Detalhes da arquitetura.
Coisa de estudante.
Até que dois policiais militares se aproximaram.
Não vieram gritando.
Pelo contrário.
Um deles falou em voz baixa:
— O senhor pode nos acompanhar?
Eu era jovem.
Curioso.
Talvez até ingênuo.
Não imaginei que pudesse haver algum problema sério em fotografar um prédio que, aos meus olhos, era simplesmente uma construção antiga da Cidade Baixa.
Acompanhei os dois.
Entramos na sede do Clube Farrapos.
Lá dentro fui conduzido até uma sala onde havia um oficial de patente superior.
Ele pegou minha câmera.
Imediatamente fiz uma ressalva:
— Cuidado, a máquina não é minha. É emprestada.
Parece que a informação não causou grande comoção.
Ele queria saber outra coisa.
— Por que está fotografando o prédio?
Expliquei.
Trabalho da faculdade.
— Quem mandou?
— O professor.
— Por que justamente este prédio?
— Porque é antigo. Porque achei bonito. E porque moro aqui perto.
As respostas, aparentemente, não eram suficientes.
Perguntou meu nome.
De onde eu vinha.
Onde morava.
O que estudava.
Onde trabalhava.
E novamente:
— Por que estava fotografando o prédio?
Eu repetia a mesma resposta.
Porque era um trabalho de aula.
Porque eu havia escolhido aquela construção.
Porque gostava da arquitetura.
Porque ficava praticamente ao lado da minha casa.
Não havia outra explicação.
Em determinado momento, o oficial fez um sinal.
Os dois policiais que permaneciam na sala me conduziram até uma dependência vazia nos fundos da construção.
A porta fechou.
E eu fiquei ali.
Era perto das onze horas da manhã.
No começo achei que seriam alguns minutos.
Depois meia hora.
Uma hora.
Duas.
Ninguém aparecia.
Ninguém perguntava mais nada.
Eu não sabia se alguém, fora daquele prédio, fazia ideia de onde eu estava.
Na faculdade poderiam imaginar que simplesmente faltara.
Na CEUPA talvez ninguém percebesse minha ausência até a noite.
Minha família estava a centenas de quilômetros de Porto Alegre.
E eu comecei a ter medo.
Medo mesmo.
Aquele medo que cresce justamente porque ninguém explica nada.
Pensei nos meus pais.
Nos meus irmãos.
Nos amigos.
No Diário de Notícias.
E comecei a imaginar:
o que vão fazer comigo?
Pelo que pude perceber, não houve ficha, ocorrência ou qualquer registro formal que me fosse mostrado.
Apenas perguntas.
Depois silêncio.
E uma porta fechada.
Naquela sala, o relógio parecia ter decidido parar.
Só perto das quatro e meia da tarde ouvi novamente passos.
A porta abriu.
Era um dos policiais.
Na mão, minha câmera.
Ou, pelo menos, o que restava do trabalho daquela manhã.
A câmera estava aberta.
O filme havia sido retirado.
Meu primeiro pensamento, confesso, foi quase um alívio:
pelo menos devolveram a máquina.
Afinal, nem minha ela era.
O policial me conduziu até a saída e, antes que eu atravessasse a porta, deu a recomendação:
— Não queremos mais ver você na frente deste prédio. Está entendido?
Concordei.
Naturalmente.
Havia apenas um pequeno problema com aquela ordem.
Eu morava praticamente ao lado do Clube Farrapos.
Para obedecer rigorosamente, teria de abandonar a CEUPA ou descobrir uma maneira de circular pela José do Patrocínio sem passar por ali.
Voltei para a Zé.
Sem fotografias.
Sem filme.
Sem trabalho para entregar.
E com uma história que certamente nenhum professor de Fotografia havia imaginado quando passou aquela tarefa.
Durante muito tempo, quando lembrava daquele episódio, o que mais me impressionava não era terem arrancado o filme da câmera.
Era outra coisa.
Eu havia saído de casa naquela manhã para fotografar um prédio antigo.
Só isso.
E passei boa parte do dia numa sala fechada, sem saber quando sairia e sem que minha família ou meus amigos soubessem onde eu estava.
Era 1977.
Eu havia acabado de descobrir a liberdade da universidade, a vida numa casa de estudantes e o jornalismo.
Naquele dia descobri também que, naquele Brasil, até uma fotografia aparentemente inocente podia despertar desconfiança.
E que algumas fachadas, por mais bonitas que fossem, talvez fosse prudente apenas admirar.
De longe.