
O Irmão Pipo
Ele não era padre.
Pelo que sabíamos, nem sequer era irmão religioso. Mesmo assim, todos no seminário — alunos, funcionários e até professores — o chamavam de Irmão Pipo.
E assim ficou.
Era um homem enorme, corpulento, já bastante idoso, de voz grossa e carregada por um forte sotaque italiano. Apesar do tamanho, tinha um jeito simpático e tranquilo.
Era uma espécie de faz-tudo do seminário.
Sempre havia alguma coisa para consertar, carregar, ajeitar ou buscar. E lá ia o Irmão Pipo.
Mas, vez por outra, aparecia um raro momento de folga.
Então ele procurava a sombra de alguma árvore e se acomodava num daqueles bancos de madeira fixados no chão do pátio.
Ficava olhando a gurizada.
Uns jogavam futebol.
Outros improvisavam uma partida de vôlei numa pequena quadra de terra, com uma rede feita de cordas.
Mais perto do bosque havia os que preferiam jogar taco, brincadeira que estava na moda naquele tempo.
Não precisava muito.
Uma lata de azeite vazia servia de alvo, duas tábuas viravam tacos e uma bolinha qualquer completava o equipamento.
Aquilo bastava para horas de diversão.
O Irmão Pipo observava tudo em silêncio.
Mas não demorava muito para algum guri se aproximar.
Depois outro.
E mais outro.
Quando percebíamos, havia uma pequena roda formada em torno daquele enorme italiano sentado no banco.
Era então que ele começava a contar histórias.
Falava da Itália.
Da juventude.
De lugares que, para nós, pareciam pertencer a outro mundo.
Mas as histórias que mais nos fascinavam eram as da Segunda Guerra Mundial.
Quando começava a falar da guerra, até a voz mudava.
O Irmão Pipo dizia ter sido soldado.
Contava episódios do combate, das fugas, do medo e de uma Europa que nós conhecíamos apenas pelos livros, pelos padres e por algumas fotografias.
Havia, no entanto, alguma coisa misteriosa em sua história.
Nunca sabíamos exatamente como a guerra havia terminado para ele.
Talvez nem ele quisesse contar.
Hoje, tantos anos depois, não tenho condições de afirmar o que havia de verdade e o que havia de imaginação naquela história. Entre os seminaristas mais velhos circulavam versões de todo tipo.
Diziam que tinha fugido da guerra.
Que fora acolhido por religiosos.
Que acabara vindo para o Brasil e encontrara abrigo entre os Servos da Caridade.
Nós, os menores, ouvíamos tudo.
E aumentávamos um pouco mais.
Mas havia uma parte da história que não dependia de boato.
As marcas estavam ali.
Pipo contava que, durante a guerra, escapara por pouco de uma explosão.
Falava devagar.
Parecia voltar no tempo enquanto lembrava.
— Se eu estivesse alguns metros mais perto, não estaria aqui contando esta história...
Então fazia uma pausa.
O grupo chegava mais perto.
Ele puxava um pouco a camisa nas costas e mostrava a pele marcada por várias cicatrizes.
— Podem colocar a mão...
E nós colocávamos.
— São fragmentos de granada. Vou carregar até morrer a lembrança daquele ataque.
Aquilo nos impressionava profundamente.
Ainda hoje consigo lembrar da sensação.
Passávamos a ponta dos dedos sobre aquelas cicatrizes e, por baixo da pele, sentíamos pequenos pontos duros.
Para nós, não havia dúvida.
Eram pedaços da guerra.
Fragmentos de algum campo de batalha europeu que, décadas depois, estavam ali, debaixo da pele de um velho italiano sentado num banco de madeira no pátio de um seminário no interior do Rio Grande do Sul.
Talvez por isso suas histórias tivessem tanta força.
A guerra deixava de ser uma página do livro.
Podíamos tocá-la.
Os padres, porém, não pareciam gostar muito daquelas reuniões.
Especialmente quando a conversa entrava nos tempos da guerra.
O Padre Luigi, nosso reitor, quando percebia o pequeno auditório se formando ao redor de Pipo, quase sempre arranjava alguma tarefa para ele.
— Pipo, precisa fazer isso...
Ou aquilo.
E lá se levantava o velho.
A história ficava pela metade.
Naturalmente, aquilo só aumentava nossa curiosidade.
Entre os meninos mais velhos surgiu então uma explicação que passou a circular quase como verdade absoluta:
— O Irmão Pipo foi fascista.
Outro acrescentava:
— Fascista arrependido.
E aparecia um terceiro:
— É fugitivo da guerra.
Não sei de onde tiravam aquilo.
Provavelmente ninguém sabia.
Mas foi ali que ouvi pela primeira vez a palavra fascista.
Depois fui descobrir que o fascismo estava ligado a Benito Mussolini.
Mais tarde vieram Hitler, o nazismo, os livros de História e todas aquelas explicações sobre a grande tragédia que havia sacudido o mundo poucos anos antes de nascermos.
Na nossa cabeça de meninos, porém, tudo era muito mais simples.
Havia os bons.
Havia os maus.
E havia o Irmão Pipo, que parecia ter vindo de algum lugar misterioso entre os dois.
O tempo passou.
Não sei exatamente quando começou.
Um dia percebemos que Pipo aparecia menos.
Depois, menos ainda.
Até que desapareceu do nosso cotidiano.
Nunca soube para onde foi.
Não houve despedida que eu recorde.
Nem explicação.
Simplesmente deixou de se sentar naquele banco de madeira à sombra da árvore.
Deixou de observar os guris jogando bola.
Deixou de contar histórias da Itália.
E nunca mais puxou a camisa para mostrar as cicatrizes da guerra.
Muitos anos se passaram.
Esqueci nomes.
Esqueci rostos.
Esqueci acontecimentos inteiros daqueles tempos de seminário.
Mas não esqueci o Irmão Pipo.
Talvez porque, antes mesmo de compreender o que significavam guerra, fascismo, Mussolini ou nazismo, aprendi com aquele velho italiano uma coisa que nenhum livro de História conseguiria ensinar daquela maneira:
uma guerra pode acabar nos mapas e nos tratados de paz, mas continuar durante toda uma vida debaixo da pele de quem esteve nela.