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Região Celeiro produz mais de 275 milhões de litros de leite por ano

Apesar da redução no número de produtores, produção se mantém estável graças à intensificação e sucessão nas propriedades

Por: Marcelino Antunes Fonte: Jornal O Celeiro
22/07/2025 às 09h52
Região Celeiro produz mais de 275 milhões de litros de leite por ano
(Foto: Reprodução)

Por décadas, a pecuária leiteira tem sido uma das colunas de sustentação da economia rural na Região Celeiro, no noroeste do Rio Grande do Sul. Em pequenas e médias propriedades, o leite é muito mais do que um produto: é sinônimo de permanência no campo, geração de renda e transmissão de saberes entre gerações. Mesmo diante de crises, instabilidades climáticas e desvalorização, o setor continua resistente — reinventando-se através da intensificação produtiva e da qualificação técnica.
Hoje, os 21 municípios que integram o Corede Celeiro respondem por uma produção anual superior a 275 milhões de litros, consolidando a região como uma das mais expressivas do Estado no setor. Municípios como Crissiumal (40,1 milhões de litros/ano), Três Passos (31,8 milhões) e Tiradentes do Sul (22 milhões) lideram o ranking regional. Este último, em especial, vem se destacando pelo dinamismo da agricultura familiar, que representa mais de 90% da produção municipal.

Uma produção familiar

Em Tiradentes do Sul, entre 350 e 500 famílias vivem diretamente da atividade leiteira, entregando o leite a cooperativas e indústrias da região. O cenário é de propriedades cada vez mais tecnificadas, com ordenha mecanizada, silagem própria, manejo nutricional preciso e estruturas modernas, como o compost barn, que garante bem-estar ao rebanho.
A família Zugue, moradores da Esquina Progresso, trabalham há mais de 30 anos com atividade leiteira e, hoje, tem como uma das principais metas garantir a sucessão familiar. Paulo César e Jaqueline iniciaram na atividade com cinco vacas, ainda voltados para a subsistência. Hoje, com 74 animais em ordenha, atingem uma média diária de 2.900 litros de leite e contam com o apoio dos filhos, Talisson, de 20 anos, Cleonice, 15 anos, e Wilian de apenas 09 anos, que ajudam nas atividades diárias da propriedade. “Quando casamos, plantávamos fumo e tínhamos algumas vacas. Fomos investindo aos poucos, sempre pensando na permanência dos filhos na propriedade”, relata o casal.
A produção é vendida à empresa Lactalys, de Três de Maio, e a família também investe em suinocultura e formulação de ração. O compost barn foi construído em 2023 e, desde então, a produtividade triplicou. “O produtor não consegue fazer uma programação a longo prazo, pois nunca sabe quanto irá receber pelo seu produto. Precisamos de mais incentivo, juros acessíveis, e políticas que realmente valorizem o homem do campo”, diz Paulo. Jaqueline ainda destaca as dificuldades logísticas. “A maravalha, que usamos para forrar a cama dos animais, está cada vez mais escassa e cara”, coloca.
Segundo o médico veterinário Felipe Rheinheimer, responsável técnico pela propriedade, o bom desempenho é fruto de planejamento.

“A alimentação é ajustada milimetricamente conforme a fase das vacas. O manejo criterioso, com três ordenhas bem distribuídas, higienização correta e o esvaziamento completo do úbere, garante saúde e desempenho ao rebanho”, avalia.

Famílias rurais lideram produção leiteira

O os números gerais da cadeia leiteira regional da Região Celeiro revelam uma tendência que mistura eficiência e preocupação. Um levantamento feito pela Emater comparando os anos de 2016, 2018 e 2023 mostra que, embora a produção anual de leite tenha se mantido praticamente estável, o número de produtores caiu quase pela metade no período.
Em 2016, a Região Celeiro contava com 4.739 produtores de leite. Já em 2023, esse número caiu para 2.512 — uma redução de cerca de 47% em apenas sete anos. Apesar disso, a produção total saltou ligeiramente de 271,9 milhões de litros para 275,3 milhões, o que revela um aumento da escala de produção nas propriedades que permaneceram ativas.

O médico veterinário da Emater/RS-Ascar Oldemar Wailler, aponta que o envelhecimento dos produtores, aliado a falta de sucessão familiar e a migração para a cultura de grãos, são fatores que podem explicar o encolhimento da cadeira produtiva. “O leite exige dedicação diária, o que tem levado muitos a deixarem a atividade”, resume.

Outro dado que ajuda a entender o cenário é a variação do preço médio pago ao produtor nos municípios da região. Em 2018, houve queda média de R$ 0,39 por litro. Em 2023, o valor voltou a subir, com acréscimo de R$ 0,61, o que trouxe alívio para os produtores — mas ainda não elimina a instabilidade característica do setor. A oscilação nos preços, que variou entre –R$ 0,10 e +R$ 0,60 por litro nos dois períodos analisados, dificulta o planejamento de médio e longo prazo nas propriedades. “Apesar da redução, o produtor consegue encontrar maneiras de manter a produção rentável, mesmo com o desestímulo do mercado. Nos últimos anos, houve uma desaceleração de produtores abandonando a atividade, acredito que seja pelos prejuízos sofridos com as safras de grãos. Temos produtores que já haviam dito que abandonariam a produção de leite, que agora estão comprando mais animais, tendo em vista a rentabilidade da atividade”, colocou.
Segundo o médico veterinário, mais de 90% da produção leiteira na região é realizada por famílias rurais. A média dos rebanhos gira em torno de 50 vacas por propriedade (incluindo vacas secas e em lactação), e a produtividade está em crescimento, com uma média regional que chega a 5 mil litros por vaca/ano, o que revela avanços no manejo e na tecnologia aplicada.

Apesar disso, mesmo com aumento de escala e produtividade, a produção total de leite da região permanece estável há quatro anos. Para o extensionista da Emater de Santo Augusto, Dhonathã Rigo, isso é resultado de um movimento permanente de intensifição da produção, e, consequentemente, redução do número de agricultores na atividade. Acaba que as vacas saem de uma propriedade e vão para a outra. Observamos uma intensificação das propriedades que optam em permanecer ativas, com a incorporação de novas tecnologias e uma maior participação de membros da família”, coloca.

Wailler também coloca os prejuízos decorrentes das intempéries climáticas não são exclusivos das lavouras de grãos, eles também atingem a produção leiteira. Com isso, os sistemas semi ou totalmente confinados vêm crescendo lentamente na região, permitindo melhor controle alimentar, proteção contra intempéries e retorno técnico-financeiro mais previsível. “Aqueles que investem em armazenagem de alimentos, sombra e água conseguem enfrentar melhor as secas e os excessos de chuva”, afirma.

“Para a arrecadação do governo municipal, estadual e federal não altera, porque o volume de leite se manteve nos últimos anos. Porém, a redução do número de produtores impacta no desenvolvimento do comércio local”, extensionista da Emater de Santo Augusto, Dhonathã Rigo.

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