
No sábado, 29 de maio, a Rádio Província transmitiu do auditório do Hospital Santo Antônio de Tenente Portela um programa especial com a participação da presidente da entidade, Mirna Braucks, a administradora Elisete Bison, a coordenadora regional de saúde, Marly Vendrusculo, a secretária municipal de saúde de Tenente Portela, Magna Sinhori e a chefe de enfermagem da entidade Regina Reggiori, que também é vereadora em Miraguaí.
No bate-papo de mais de uma hora, as participantes deixaram claro a situação do hospital diante da pandemia, com as suas mudanças de atendimento e infraestrutura e principalmente sobre a questão financeira e o verdadeiro malabarismo que entidade está precisando fazer para seguir entregando um serviço de excelência e que salva muitas vidas.
A primeira coisa que precisa ser considerado é o contexto no qual o Hospital Santo Antônio se encontra. Localizado em Tenente Portela, a entidade faz parte de um quadro de três hospitais de maior porte que atendem a 2ª Coordenadoria Regional de Saúde, ao lado Hospital de Caridade de Três Passos e o Hospital Divina Providência de Frederico Westphalen, no entanto, é inegável, que no atual o momento, a casa de saúde de Tenente Portela é a maior e mais completa em atendimento nesta região.
Diferente do que muitas pessoas pensam o Hospital Santo Antônio não é conveniado para atendimento 100% pelo Sistema Único de Saúde e sim 80%, no entanto, atualmente mais de 95% dos atendimentos feitos pela casa de saúde são através do SUS, sendo que por ser porta aberta a entidade tem que atender, na urgência e emergência, cinco especialidades, mas atualmente atende 15. Segundo Marly Vendrusculo, o hospital recebe um valor fixo para esse atendimento porta aberta nas cinco especialidades. O valor não varia com o número de atendimentos e as demais especialidades que são atendidas, são por conta do próprio hospital.
Sobre as mudanças na estrutura do hospital, Mirna Braucks ressaltou que em março do ano passado foram montadas duas alas, uma para o atendimento regular e outra para atendimento dos casos de Covid-19. A antiga emergência, por exemplo, hoje abriga leitos de UTI para atender pacientes diagnosticados com o vírus. O centro cirúrgico do hospital está modificado e equipado com leitos de UTI regular para fazer outros atendimentos. A demanda de casos de Covid-19 é muito alta, na entrevista Mirna citava que a entidade já chegou a ter 19 pacientes diagnosticados com a doença, internados na UTI.

A equipe do HSA é formada por 35 médicos e 580 funcionários. Economicamente o HSA tem uma importância impar para a região, uma vez essa equipe gera uma folha de pagamento mensal de R$ 3 milhões, que são injetados na economia da região. Esse número parece alto, no entanto, o HSA sofre com a falta de profissionais, principalmente médicos, para atender os plantões, visto que além do atendimento de Covid-19, a entidade atende ainda uma grande demanda de emergência, urgência e os atendimentos eletivos. Mirna explica que foi reduzido o número de cirurgias eletivas, para manter a equipe focada nos demais atendimentos, no entanto, mesmo assim, deixando fora a oftalmologia que funciona normalmente, ainda são realizadas mais de 200 cirurgias eletivas por mês.
A Unidade de Terapia Intensiva do HSA tem 8 leitos normais SUS e 2 leitos privados e mais 5 leitos conveniados para atendimento de pacientes diagnósticos com Covid-19. Poucas vezes desde o início da pandemia o hospital teve menos do que 10 pessoas internadas com Covid-19. Na semana da entrevista haviam 19 pessoas com a doença ocupando esses leitos, no entanto, o convênio do hospital abriga apenas 5 leitos, pelos quais recebe R$ 1.600 por dia por leito. Duas coisas precisam ser notadas aqui, a primeira é que nem esses R$ 1.600 são capazes de suprir o gasto diário de um leito com Covid-19 onde o custo diário médio é de R$ 2.800 e a segunda é que mesmo com 19 pacientes com Covid-19 o HSA recebe apenas por cinco.
A situação fica pior quando analisamos os demais leitos, aqueles 8 que não são orçamentados para Covid-19 e sim como leitos normais recebem R$ 430 por dia apenas. Então, quando entidade tem 19 leitos com pacientes com Covid-19, cinco deles recebem R$ 1.600, outros 8, que são SUS, recebem R$ 430,00 e os outros 6 leitos restantes não recebem nada, pois não são conveniados, enquanto que todos os 19 tem custo médio diário de cerca de R$ 2.800.
A conta não fecha. E não para por aí, dado que o atendimento regular também ficou mais caro e isso é exemplificado por Mirna Braucks, quando ela relata um episódio vivenciado naquela semana onde um medicamento tabelado em R$ 33, estava sendo vendido a mais de R$ 180 e mesmo assim havia grande dificuldade para conseguir tal medicamento.
A administradora do hospital Lisete Bison é enfática em dizer que a conta não fecha. Ela explica que o contrato do hospital para internações prevê o recebimento de R$ 900 por internação, quando o ideal para cobrir o custo da mesma internação seria de pelo menos R$ 3.200. Segundo ela para conseguir manter o funcionamento com qualidade, a direção vai buscando empréstimos, recursos para custeio, parcelamento de dívidas e renegociações.

Um discurso comum entre as participantes da entrevista foi de que as equipes de saúde estão extenuadas. O próprio HSA está com dificuldades para fazer suas escalas médicas. Lisete informa que essas escalas estão sendo feitas praticamente em cima da hora, e que estão sendo montadas com muita dificuldade. A secretária municipal da saúde de Tenente Portela disse que o problema também atinge a saúde básica do município e ela credencia a falta de médico o fato do município não ter um atendimento até mais tarde nas unidades básicas de saúde.
A chefa de enfermagem, Regina, mostra uma outra realidade que os profissionais enfrentam, além do cansaço, que é desrespeito e falta de paciência das pessoas que procuram, principalmente a emergência do hospital. Ela disse que os relatos são inacreditáveis, inclusive com ameaças contra a equipe, exigindo muitas vezes, atendimento prioritário. Todas as participantes clamaram para que a comunidade tenha paciência e colabore com os profissionais que estão na linha de frente, buscando oferecer o melhor atendimento a todos e pediram que a comunidade siga auxiliando a entidade, afinal se não fosse a estrutura montada no Hospital Santo Antônio nos últimos 10 anos, os efeitos da pandemia poderiam ser muito mais fatal para a nossa região.
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