O avanço da inadimplência voltou a se intensificar na Região Celeiro no segundo semestre de 2025, acendendo um alerta para os primeiros meses deste ano. Conforme dados do Mapa da Inadimplência da Serasa, entre julho do ano passado e janeiro deste ano, o total de consumidores com restrição no CPF aumentou 13,5%, passando de 34.005 para 38.588 pessoas nos 21 municípios da microrregião.
No mesmo período, o volume total das dívidas cresceu ainda mais: alta de 18%, saltando de R$ 266,1 milhões para R$ 314,2 milhões. Em apenas seis meses, a região acumulou quase R$ 50 milhões adicionais em débitos.
O cenário indica não apenas aumento no número de moradores com contas em atraso, mas também elevação no valor médio devido. O movimento ocorre em um contexto de crédito mais caro, orçamento doméstico pressionado e menor margem financeira das famílias.
Os maiores volumes absolutos concentram-se nos principais centros urbanos. Três Passos lidera, com 6.043 inadimplentes e R$ 51,4 milhões em dívidas acumuladas até janeiro. Na sequência aparecem Santo Augusto (4.562 pessoas e R$ 32,9 milhões) e Tenente Portela (4.474 pessoas e R$ 33,7 milhões). Juntas, as três cidades reúnem mais de 15 mil consumidores negativados, o equivalente a quase 40% do total regional.
No comparativo semestral, Santo Augusto registrou 792 novos inadimplentes, enquanto Tenente Portela teve aumento de 554 registros. Em Três Passos, o crescimento foi de 627 pessoas.
Percentual elevado em municípios menores
Quando analisado o índice proporcional à população, municípios de menor porte apresentam maior fragilidade. Miraguaí lidera com 44% da população inadimplente até janeiro. Em seguida estão Campo Novo (41,3%), Coronel Bicaco (39,6%), Braga (38,2%) e Inhacorá (34,9%).
Na outra extremidade, os menores percentuais foram verificados em Esperança do Sul (17%) e Derrubadas (18,5%), seguidos por Crissiumal (20,1%).
Outro dado relevante é que o crescimento do valor total das dívidas superou o avanço do número de negativados. Enquanto o contingente de pessoas com restrição subiu 13,5%, o estoque financeiro aumentou 18%, indicando elevação no valor médio das pendências.
Causas e comportamento financeiro
A diferença de ritmo entre o número de inadimplentes e o volume financeiro sugere aumento no valor médio das dívidas, possivelmente relacionado ao maior uso do crédito rotativo, parcelamentos mais longos ou renegociações que não reduziram de forma significativa o saldo devedor.
O cenário regional acompanha a tendência nacional. No Brasil, quase 50% da população adulta está inadimplente; no Rio Grande do Sul, o índice se aproxima de 45%.
A especialista em educação financeira da Serasa explica que a inadimplência pode ter origens externas e internas. “Fatores externos incluem economia instável, juros elevados e custo de vida. Já os internos envolvem organização financeira, controle de gastos e planejamento. Muitas vezes o problema não é apenas ganhar pouco, mas não saber administrar o que se ganha”, afirma.
Segundo ela, dívidas com bancos e cartões de crédito lideram os registros, mas contas básicas como água, luz e gás também têm apresentado crescimento. “Quando despesas essenciais entram na inadimplência, é sinal de que o orçamento está bastante comprometido”, alerta.
A especialista também destaca o aumento da oferta de crédito digital. “Novas empresas de crédito e as fintechs ampliaram o acesso ao crédito, o que é positivo. No entanto, a facilidade pode se tornar uma armadilha. O crédito é uma ferramenta salutar, desde que utilizado com responsabilidade”, complementa.
Renegociação e cenário nacional
Diante do avanço da inadimplência, iniciativas de renegociação ganham importância. Desde 23 de fevereiro, ocorre o Feirão Serasa Limpa Nome, promovido pela Serasa, que reúne mais de 2 mil empresas parceiras e conta com apoio dos Correios para atendimento presencial, oferecendo possibilidade de negociação com descontos de até 99%.
Em âmbito nacional, são mais de 620 milhões de ofertas disponíveis. No Rio Grande do Sul, quase 6 milhões de consumidores têm acesso a mais de 26 milhões de propostas.
Para a especialista Aline Vieira, a renegociação representa uma oportunidade relevante. “Muitas pessoas querem retomar sua vida econômica, mas não sabem por onde começar. Por isso, oferecemos diferentes opções para que a população possa recuperar sua situação financeira. Em breve, teremos tendas em alguns Estados para ampliar o acesso e levar mais educação financeira às comunidades”, projeta.
Ela ressalta, porém, que é fundamental cumprir os acordos firmados. “O acordo precisa caber no orçamento e ser honrado. Há muitos casos de reincidência, em que as pessoas conseguem limpar o nome por meio de negociação, mas voltam à inadimplência por falta de planejamento ou organização financeira”, destaca.
De acordo com o Mapa da Inadimplência da Serasa, o Brasil encerrou janeiro com 81,3 milhões de consumidores inadimplentes e 327 milhões de débitos ativos, que somam R$ 524 bilhões. No Rio Grande do Sul, são mais de 4 milhões de pessoas nessa condição, com quase R$ 30 bilhões em dívidas.
No Estado, quase 6 milhões de consumidores têm acesso a mais de 26 milhões de ofertas, com possibilidade de quitação via Pix, garantindo baixa imediata da negativação e reflexo instantâneo no Serasa Score.
Pela primeira vez, o Feirão reúne número recorde de empresas parceiras, crescimento de 32,6% em relação à edição de novembro de 2025. “No ano passado, tivemos mais de 10 milhões de acordos durante o Feirão Serasa Limpa Nome. Este ano queremos superar esses números, e a expectativa é muito positiva”, afirma Aline Vieira.
Segundo ela, na primeira semana do Feirão do ano passado foram firmados cerca de 15 mil acordos. Nesta edição, o número já ultrapassa 19 mil.

