
O crédito rural está cada vez mais restrito no Brasil, enquanto cresce o volume de dívidas com dificuldades de pagamento entre os produtores. O cenário é apontado em uma nota técnica divulgada nesta quinta-feira (5) pela Assessoria Econômica da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), que alerta para os impactos da situação sobre a safra 2026/27.
De acordo com o levantamento, as contratações de crédito rural somaram R$ 327,72 bilhões nos 12 meses encerrados em setembro de 2026. O valor representa uma redução de 10,81% em relação ao período anterior e de 22,41% na comparação com o pico registrado em abril de 2024.
A retração também aparece no período mais importante para o financiamento do plantio. Entre julho e setembro deste ano, foram contratados R$ 87,79 bilhões, uma queda de 22,65% em relação a 2025 e de 46,55% na comparação com 2023. É o terceiro ano consecutivo de redução no trimestre de abertura da safra.
Enquanto o crédito novo diminui, as dívidas problemáticas aumentam. Em julho de 2026, esse tipo de operação alcançou R$ 207,47 bilhões, equivalente a 23,46% de toda a carteira de crédito rural do país. Em dezembro de 2023, essa proporção era de apenas 5,46%.
A carteira problemática reúne operações renegociadas, prorrogadas, em atraso ou inadimplentes. Outro indicador preocupante é a inadimplência superior a 90 dias, que quase triplicou em um ano, passando de R$ 15,65 bilhões para R$ 45,71 bilhões.
Custeio da soja registra forte retração
Um dos principais reflexos da redução do crédito aparece no financiamento do custeio agrícola. No trimestre de julho a setembro, os recursos destinados ao custeio da soja caíram de R$ 36,72 bilhões, em 2023, para R$ 14,05 bilhões, em 2026.
A área financiada para o cultivo da oleaginosa também diminuiu significativamente, passando de 8,03 milhões para 2,95 milhões de hectares.
A situação preocupa diante da projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima 49,3 milhões de hectares de soja na safra 2026/27, crescimento de 1,4%. Para a Farsul, existe um descompasso entre a expansão prevista da área plantada e a forte redução dos recursos disponíveis para financiar a produção.
A entidade alerta que o principal risco pode não ser necessariamente a diminuição da área cultivada, mas a redução da produtividade, provocada pela menor aplicação de tecnologia e de investimentos nas lavouras.
Rio Grande do Sul concentra maior volume de dívidas problemáticas
O Rio Grande do Sul apresenta um dos cenários mais preocupantes do levantamento. Apesar de continuar liderando as contratações de crédito rural no trimestre de plantio, com R$ 14,36 bilhões, o estado registrou queda de 10,56% em relação a 2025 e de 39,53% na comparação com 2023.
No custeio da soja, a redução chegou a 58,37% em relação a 2023. Já no arroz, a queda foi de 44,3%.
Além da diminuição dos financiamentos, o estado possui o maior estoque de dívida problemática do país, com R$ 44,89 bilhões. O montante corresponde a 41,17% do saldo de crédito rural gaúcho. Em dezembro de 2023, essa participação era de 9,01%.
O volume representa aproximadamente um quinto de toda a dívida problemática registrada no Brasil, evidenciando a dificuldade enfrentada pelo setor agropecuário gaúcho para acessar novos recursos e renegociar compromissos anteriores.
Renegociação alcança apenas parte das dívidas
A Medida Provisória 1.376/2026, que estabeleceu uma janela de renegociação de dívidas rurais até 12 de novembro, já resultou em R$ 18,60 bilhões em novas operações até 30 de outubro.
No Rio Grande do Sul, foram renegociados R$ 7,78 bilhões. Apesar de o estado apresentar a maior cobertura entre as grandes unidades da Federação, 82,6% da dívida problemática gaúcha ainda ficou de fora da medida.
Para a Farsul, a iniciativa chegou tarde e não alcança uma parcela suficiente dos produtores que enfrentam dificuldades financeiras.
Entidade defende ampliação das medidas
Diante do cenário, a Assessoria Econômica da Farsul defende a prorrogação do prazo de renegociação previsto na MP 1.376/2026, além da inclusão de operações lastreadas em Cédulas de Produto Rural (CPR).
A entidade também recomenda simplificar o acesso aos mecanismos de renegociação, padronizar as condições oferecidas pelos bancos e ampliar a oferta de crédito para custeio, especialmente aos produtores do Pronamp e aos demais agricultores que mais perderam acesso aos financiamentos.
Segundo a avaliação da federação, a combinação entre crédito mais caro, restrição de recursos e aumento do endividamento pode comprometer a capacidade de investimento dos produtores, afetar a produtividade das lavouras e ampliar as dificuldades financeiras do agronegócio brasileiro.
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