
Nas redações dos jornais antigos, uma das diversões dos veteranos era pregar peças nos “focas” — os recém-chegados inexperientes que sonhavam ser repórteres. Uma das mais clássicas era mandar o foca até a gráfica buscar uma “linotipo”. O novato saía apressado para cumprir a missão e, ao chegar lá, dava de cara com um equipamento gigantesco, pesado e, claro, impossível de ser carregado. Voltava cabisbaixo, sob risos gerais. Era uma espécie de vestibular da profissão.
No Província, nossa redação da rua Tapijara não tinha linotipo, e o processo era bem mais artesanal. As colunas eram datilografadas em máquinas antigas e, na fase final, cortadas e coladas com títulos montados manualmente. A impressão mesmo era feita fora, numa gráfica terceirizada. Mas, mesmo sem linotipo, a gente sabia se divertir com os novatos.
Um dia, apareceu por lá um guri de uns 17, 18 anos, vindo do interior. Queria uma oportunidade. Havia se mudado pra cidade para estudar — e, por namorar a irmã da namorada do irmão do dono do jornal, achou que podia pedir emprego. E conseguiu. Olivar era dedicado, sério e muito trabalhador. Mas ainda não havia sido “batizado” com alguma peça da redação...
Foi numa tarde de sexta-feira, depois da distribuição do jornal, que o Olivar entrou na sala do diretor:
— Tem mais alguma coisa que eu possa fazer?
O diretor, lembrando das velhas pegadinhas do tempo da “linotipo”, não perdeu a chance:
— Olivar, reparei que as laudas estão com impressão fraca. Acho que tá na hora de lavar as fitas das máquinas de escrever... e depois mandar repintar.
O guri só assentiu com a cabeça e saiu em silêncio.
O diretor saiu pra resolver outras tarefas, e, ao voltar, levou um susto.
Olivar, coberto de tinta preta e vermelha, com as mãos manchadas e a roupa estragada, olhou para ele, sincero:
— Não sei se fiz certo, mas só consegui lavar uma das fitas até agora...
Sim. O Olivar lavou mesmo a fita da máquina de escrever.
E se tivesse tinta pra mais, lavava todas.