
Esta sexta-feira, 24 de janeiro, marca os 100 anos da morte do Tenente Mario Portela Fagundes, líder revolucionário do movimento tenentista gaúcho, membro embrionário da Coluna Prestes e patrono do município de Tenente Portela.
O município recebeu o nome de Tenente Portela em homenagem ao jovem Mário Portela, que em meio a insurreição revolucionária liderada por Luis Carlos Prestes em 1924, acabou tombando nas margens do Rio Pardo, hoje território de Pinheirinho do Vale, em um confronto com as tropas legalistas do Rio Grande do Sul.
O Jovem Inteligente
Mário Portela Fagundes nasceu em Pelotas no dia 15 de julho de 1898. Segundo o livro “Tenente Portela e Coluna Prestes no Rio Grande do Sul” escrito por Jalmo Antônio Fornari, Fátima Marlise Marroni Rosa Lopes e Heloisa Helena Leal Barreto Gehlen, o homem que emprestaria seu nome para o município, era um jovem curioso, absolutamente estudioso e muito inteligente.
Essa conclusão dos autores é reflexo de uma extensa pesquisa sobre a vida de Portela, que resgatou a sua história, localizando boletins, históricos escolares, diários e até cartas escritas pelo jovem engenheiro militar, apaixonado pelo país e que, mais tarde, morreria em nome desse amor.
O professor
A história de Tenente Portela está intrinsecamente ligada com a de Luiz Carlos Preste. Portela foi aluno de Luiz Carlos na Escola Militar do Realengo, onde se formou engenharia. Depois reencontrou seu mentor, agora como comandante do 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo. Foi a sua capacidade de liderança que lhe rendeu uma promoção ao posto de 1º Tenente em 18 de junho de 1923.
“O que idealizei aos 14 anos me foi dado a cumprir totalmente. Recém agora posso dispor da vida e vou dá-la por um Brasil melhor, onde haja mais justiça e mais amor ao próximo”. A frase escrita por Portela em uma das cartas enviada ao seu irmão Albino Portela traçava ali um paralelo ideológico apartidário que naquele momento criava um sentimento de revolta em diversos oficiais militares pelo Brasil. A maioria desses sentimentos de revolta emanavas dos praças e recrutas e encontravam ecos nos tenentes, que se mostravam indignados com a situação em que o país se encontrava.
A revolução
]Após uma série de acontecimentos, os quais são detalhados e documentados na fonte histórica já citada, em 28 de outubro de 1924, sob o comando do então capitão Luiz Carlos Prestes e do Tenente Mario Portela Fagundes, era lançado o Manifesto Tenentista do Rio Grande do Sul. Apesar de assinado por Prestes, o documento foi escrito por Portela, que além da inteligência estratégica e habilidade com números, também carregava com si uma verve discursiva elogiada por todos os que o conheceram em sua breve vida.
A Coluna Prestes nasce em Santo Ângelo com a tomada do quartel. Depois, o grupo liderado por Prestes e Portela se desloca pelas cercanias de São Luiz Gonzaga onde agrega forças com grupos vindos de Alegrete, Uruguaiana e Cachoeira do Sul.
A intenção do grupo era clara. Começar o movimento no Rio Grande do Sul e depois se deslocar em direção ao Centro do país, onde juntaria força com revolucionários paulistas. Foi neste movimento que ocorreram dois acontecimentos marcantes da breve vida revolucionária de Tenente Portela.
Em meio a matas e estradas estreitas e pouco usadas nas cercanias de Ijuí, Portela comandava um pequeno grupo, que a cavalo fazia um reconhecimento do local, quando se depararam com um automóvel com um motorista e um oficial. O carro, ao se deparar com os cavaleiros, virou de volta, não sem antes ser alvejado por uma rajada de tiros disparados por Portela, que carregava uma metralhadora. Quis o destino que o motorista do veículo escapasse ileso, no entanto, seu caroneiro não teve a mesma sorte, sendo atingido e morto.
O homem morto era Aragão Bozano, comandante das tropas legalistas e ex-prefeito de Santa Maria. Sabendo da presença dos revolucionários da região, Bozano teve a infeliz ideia de, com um carro e um motorista, fazer um reconhecimento do território e se certificar das informações. Sua morte foi noticiada como um escândalo por jornais como A Federação, e caiu como uma bomba no colo do governo central, uma vez que o morto gozava de grande prestígio no estado.
O herói
O segundo ponto marcante foi a Batalha da Ramada, a mais sangrenta de toda a coluna. Portela e seus comandados tocavam a vanguarda para fazer reconhecimento do caminho por onde o grosso da tropa passaria em direção ao Alto Uruguai quando se deparou com uma grande tropa legalista. Sem condições de enfrentá-los em pé de igualdade, Portela e seus homens se embrenharam na mata fechada.
A manobra permitiu que Portela comunicasse Prestes sobre a presença inimiga, o que evitou que eles fossem pegos de surpresa. O confronto durou cerca de 8 horas. Neste tempo de batalha acirrada, Portela conseguiu reunir seu grupo e, através de uma manobra ousada, fraquear o inimigo. Essa manobra desarticulou completamente as defesas dos legalistas que, diante da derrota iminente, precisaram recuar novamente à Palmeira das Missões.
Apesar da parda de muitos soldados, as tropas de prestes marcharam em direção ao Alto Uruguai, na expectativa de atravessar para o lado catarinense. Foi neste trecho da marcha, que Prestes e Portela passaram por esse território, tendo acampado onde hoje fica o município.
A última batalha
Na sequência, Prestes assumiu o comando da vanguarda e Portela o da retaguarda. Sabendo que havia tropas no encalço da coluna, Portela tinha a missão de retardar um possível confronto para que o grupo maior não fosse pego de surpresa na travessia. Nesta feita, Portela já era visto pelos demais homens como um herói, depois de sua bravura na batalha da Ramada.
Foi Pedro Sales de Oliveira Mesquita, capitão do 6º Corpo Auxiliar da Brigada Militar, que relatou em seu diário os detalhes do confronto do Rio Pardo que acabaria na morte do Tenente Portela. Ele, acompanhado de uma tropa fortemente armada, recebeu informações de localização de Portela e seus homens e então foram ao confronto.
Eram 13 horas do dia 24 de janeiro de 1925, quando as tropas legalistas, formadas por cerca de 60 homens fortemente armados, caíram sobre Portela e seus companheiros que estavam prestes a fazer a travessia do Rio Pardo com o uso de três canoas.
O relato de Pedro Sales, diz que a travessia era difícil, havia muito tocos e galhos sobre o rio, era fundo e tinha correnteza. Diante da surpresa, os legalistas tomaram rapidamente as canoas. Em número menor e desprovidos de recursos bélicos, os homens de Portela foram caindo. Alguns se jogaram na água tentando atravessar. Os poucos que se encontravam na outra margem, tentaram fazer uma linha de tiros, mas sem efeitos.
A morte
Mario Portela tentou lutar bravamente, mas era uma batalha perdida. Ele foi alvejado com o tiro de fuzil no peito. Mesmo ferido, se jogou na água e tentou atravessar o rio a nado. As forças e a vida lhe faltaram na metade do leito. Um dos seus homens ainda pulou na água para tentar resgatá-lo, mas não obteve sucesso. No fim, a batalha acabou com as águas do Rio Pardo pintadas de vermelho sangue e o corpo de Portela enroscado em galho no meio do rio.
Os brigadianos foram até a noite retirando os corpos das águas que eram amontoados na margem do Rio Pardo. Em meio aos cadáveres, o grupo acampou naquela noite. Na manhã seguinte, foram enterrados em covas coletivas.
O reconhecimento
Segundo relato de Pedro Sales, no entanto, o corpo do Tenente Mário Portela teve outro destino. Com autorização de seu comandante, ele mesmo teria colocado o corpo do jovem que ele descreve como inteligentíssimo e estimado por todos que o conheciam para descansar na sobra de uma pitangueira. No tronco da árvore, ele relata ter escrito: “Aqui jaz Major Mário Portela Fagundes, morreu como um bravo na defesa de uma causa inglória.”