
Foi uma noite insone e agitada. Eu estava escalado para a "Cobertura do Papa" e deveria permanecer da meia-noite até às 7 horas na chamada rótula da Cascatinha, junto ao estádio Olímpico. Como sempre, cheguei antes e me misturei às centenas de pessoas que já chegavam ao local para fazerem vigílias na espera da missa papal na manhã seguinte, em um altar já instalado na rótula que viria depois a chamar-se “Rótula do Papa”. A visita de 22 horas no Rio Grande se tornaria célebre pela frase entoada em uníssono pelos gaúchos depois de João Paulo II beber uma cuia de mate: "Ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho".
As pessoas chegavam em grupos, alegres, animadas e agitadas. Os ônibus que as traziam dos mais remotos pontos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e até da Argentina e do Uruguai, paravam relativamente próximo, no estacionamento do Grêmio. A pé, os peregrinos se dirigiam em grandes grupos até à rótula para conseguirem os melhores lugares com o objetivo de acompanharem a missa papal próximos do altar.
Meu trabalho de repórter era identificar e entrevistar pessoas das caravanas, que de locais distantes, chegavam à cidade. Nos estúdios da Rádio Gaúcha, o comando era do Claudio Monteiro, que me chamava no ar para registrar em reportagens a aglomeração dos fiéis que iam chegando para passar a noite no local. Freiras, padres, seminaristas, senhoras e senhores, grupos de jovens e crianças. Quando o microfone era aberto, eu, com os enormes fones, ia falando sobre a programação, sobre o crescente número de pessoas, lia por vezes as faixas e os estandartes que, com fé e devoção, eram conduzidos; descrevia a emoção dos religiosos, a alegria dos jovens e a obstinação dos idosos. Em outros ‘boletins’, falava da infraestrutura montada no local, -banheiros, alimentação e atendimento médico-, descrevia a ornamentação do altar nas cores branca e amarela ou entrevistava alguém, de preferência de bem longe. Lembro de ter conversado com uma simpática senhora que havia viajado o dia todo de ônibus vindo com as suas filhas do Uruguai para ver Sua Santidade e rezar com ele na missa do amanhecer. No final dos boletins, me aproximava dos grupos em vigília que entoavam cantos, sempre incluindo a “Canção do Papa”, um hit brasileiro naqueles dias de 1980. “A benção, João de Deus, nosso povo te abraça. Tu vens em missão de paz. Sê bem vindo, E abençoa este povo que te ama.”
Foi assim a noite toda, só no clarear do dia é que as atenções dos veículos que faziam a cobertura foram se transferindo para o trajeto que o papamóvel deveria percorrer entre a Cúria Metropolitana até a Rótula da Missa. O traçado oficial, com um repórter a cada 100 metros, previa a saída da Rua Espírito Santo sentido Demétrio Ribeiro, em direção da Avenida Cascatinha. Tudo programado com boa antecedência. Enquanto eu tomava o café da manhã, alguém teve um “lapso” em imaginar a remota possibilidade da saída ser alterada de improviso e o papamóvel sair pela Espírito Santo sentido Duque de Caxias... Se isso acontecesse, levaríamos um “furo”. Já estava saindo do prédio e o Valdir me chamou, destacado novamente para pegar o “barra dois” e me dirigir agora até a esquina da Catedral para cobrir, por garantia, esta remota, mas possível eventualidade.
Claro que o trajeto não seria alterado, uma vez que ele estava com o esquema de segurança armado, com cordas de contenção de público, com centenas de fiéis aguardando a passagem do Sumo Pontífice. Mas vai que... Vai que... Quase oito horas, horário de saída da Cúria, estava eu aborrecido na esquina da rua da catedral. Sem muita utilidade jornalística, imaginei o que poderia fazer para tornar o meu posto relevante. Guardas e seguranças circulavam o tempo todo próximo do Papa Móvel, e os colegas de imprensa estavam todos na parte final da Espírito Santo. Lá se aglomeravam dezenas de repórteres que iniciariam a cobertura do trajeto em minutos. Imaginei que a distância de onde eu estava até o carro do Papa era de uns 50 metros, calculei que deveria ser aproximadamente o tamanho do cabo que estava entre meu microfone e a unidade móvel. Afinal, iria arriscar. Vou dar um tempero à situação! Pensei comigo.
Fiquei aguardando o momento preciso, quando senti a movimentação no portão da casa do Cardeal, passei por baixo da corda de isolamento e, correndo, tentei ainda explicar aos policiais que estavam próximos: "- Vou até outro extremo da rua!! Tenho cabo suficiente!" Não ouvi o que falaram, se é que disseram alguma coisa. Só vi que, sem entender muito do que estava acontecendo, os policiais vieram para o meu lado. Por sorte, neste ínterim, o Papa João Paulo II apareceu sob o portão de ferro da Cúria acompanhado de Dom Vicente Scherer e de vários outros bispos, arcebispos e padres. Naquele momento, depois da corrida, parei exatamente no passeio em frente ao papamóvel. Atrás de mim, vinham com passo apressado dois seguranças. Imediatamente, as pessoas nas sacadas próximas começaram a jogar papeis picados, agitar bandeiras e a bater palmas. Liguei o microfone e dei a ordem, me coloquem “no ar”. Os seguranças ficaram confusos e não sabiam se interferiam na transmissão da Gaúcha ou desistiriam de me remover voltando suas atenções para as demais pessoas. O Papa estava muito perto de nós e eu, com voz firme, descrevia a cena: “Sua Santidade, João Paulo II, à minha frente, está deixando a Cúria para se dirigir à rótula da Cascatinha, o acompanham no Papamóvel...”
O Papa, simpático e sorridente, passou a abanar para todos os que estavam próximos. Com fones nos ouvidos e o microfone na mão esquerda, impulsivamente acenei com a direita para o Papa. Tenho certeza absoluta de que, a uma distância de menos de 3 metros, ele identificou o aceno, sorriu como sorria para todos e correspondeu, talvez incrédulo sobre o que fazia um repórter tão próximo dele, furando a segurança. Minutos após, assim que o veículo oficial tomou a direção da Demétrio, encerrei o registro com o Robson, que estava comandando a cobertura naquele momento, sequenciado por outros repórteres que registravam a passagem do carro em seus postos. Um dos seguranças ainda voltou a me encarar com o olhar bravo, mas desistiu, talvez porque deveria seguir o cortejo do Papa. Baixei os enormes fones, com a certeza do dever cumprido. Afinal, havia feito um exclusivo registro jornalístico. Subi lentamente a rua em direção à unidade móvel que estava estacionada pouco além da corda de isolamento. Mesmo após uma noite acordado e trabalhando, eu estava feliz. Afinal, o Papa havia me acenado e eu, certamente, era o repórter gaúcho que havia chegado mais perto de “Sua Santidade” para fazer o trabalho. Hoje, passados 40 anos, sinto que quem me acenou foi um “Santo”.