Terça, 21 de Julho de 2026
16°C 25°C
Tenente Portela, RS
Publicidade

Contagem dos votos em 1982

A derrota de Pedro Simon

Por: Jalmo Fornari
20/02/2024 às 14h26 Atualizada em 20/02/2024 às 14h52
Contagem dos votos em 1982

Na derrota do Simon em 1982!

No início dos anos 80, as unidades móveis eram o que havia de mais avançado na cobertura jornalística, adaptadas com rádios transmissores tipo os da polícia. Com elas, fazíamos as coberturas quando não havia linhas telefônicas urbanas. As interurbanas dependiam, quase sempre, de conexões via telefonistas. Nossas reportagens cotidianas ao vivo quase sempre dependiam deste aparato tecnológico da época.

Com esta tecnologia, a Rádio Gaúcha enfrentou o desafio de realizar a importante cobertura eleitoral do Rio Grande do Sul em 1982. Naquele ano, os Estados retomavam o rito democrático das eleições diretas. Aqui, tínhamos como personagens da disputa Jair Soares do PDS e o oposicionista Pedro Simon, que representava o MDB e a renovação. A eleição acontecia no dia 15 de novembro, aniversário da proclamação da República. A apuração era manual, voto por voto, urna por urna, cidade por cidade, zona eleitoral por zona eleitoral, com totalizações imprecisas que demoravam dias.

No dia da eleição, vários repórteres eram destacados para acompanhar o pleito, falar das ruas, das urnas, das filas e registrar irregularidades, mas o trabalho principal era o do repórter destacado para acompanhar, passo a passo, os candidatos. No primeiro boletim, era relatado o café da manhã, a recepção aos coordenadores de campanha, depois o almoço e o grande momento do voto do candidato. Após, a tarefa difícil, às vezes impossível devido às limitações tecnológicas, era acompanhar o andar do pleito registrando as reações do perdedor ou do vitorioso e é claro a primeira entrevista do eleito.

Naquele ano de 1982, fui o repórter da Gaúcha destacado para acompanhar o candidato oposicionista Pedro Simon. Ele iria votar em uma urna próxima a seu apartamento, antes, porém, assistiria uma missa e depois do momento do voto, percorreria as zonas eleitorais da capital para então, no fim da tarde, ir para a sua casa de praia em Rainha do Mar. Pois é, aí estava o problema, no litoral não havia telefone automático ou qualquer outro meio de comunicação com Porto Alegre. Um desafio que nossa concorrência, a Rádio Guaíba, não ousou desafiar, porém a genialidade do técnico Holmes Aquino encarou de frente.

O técnico Holmes aproveitou o sistema de telefonia que ligava automaticamente Porto Alegre a Torres e de lá até a praia de Rainha do Mar, onde instalou um sistema de rádio transmissor adaptando altas antenas e na recepção acoplou o sistema de unidade móvel que se ligava com o meu fusquinha de reportagem. Foram dias de engenharia e testes e por fim, após a eleição, lá estava eu, acompanhado do técnico Farias, com o privilégio exclusivo de ser o único repórter de rádio do Rio Grande do Sul a acompanhar Simon durante a apuração eleitoral de 1982.

Mal encerrada a votação, começou a movimentação do transporte de urnas, a tradicional leitura do primeiro voto e quase simultaneamente os milhares e imprecisos resultados parciais recheados de boletins sobre a votação oriunda dos mais remotos confins do Rio Grande. Graças ao aparato de comunicação, eu falava com relativa segurança da praia. Meus primeiros boletins descreviam o esquema montado pelo MDB e seus aliados, falava da central paralela de acompanhamento eleitoral instalada há poucas quadras da casa de Simon, onde Viana Pinto, Vitello, e dezenas de outros assessores organizavam a captação de números através de rádio escuta e munidos de calculadoras manuais e barulhentas faziam as contas e os cálculos dos votos. Tudo artesanal em uma época sem computadores pessoais ou telefonia celular.

Na primeira noite, estacionei o fusca na frente da casa do candidato, fiquei um tempo razoável no ar falando das expectativas e somando as informações que dispunha com o Mendes Ribeiro que, solenemente como sempre, comandava a cobertura. Lá pelas 11 da noite, em um dos últimos boletins, a dona Tânia Simon, então esposa do candidato, saiu de casa incomodada com impertinência do único repórter à sua porta e exigindo energicamente que eu deixasse o local, afinal todos precisavam descansar.

No dia seguinte, fiz vários boletins permeando a transmissão com informações escassas mas exclusivas do litoral, mas sem nenhuma manifestação do Simon. Entrevistei assessores, candidatos a deputado 'que também estava por lá, Ostermann, Schirmer e Fogaça, mas não conseguia a palavra mais importante para analisar os resultados parciais. A explicação era clara, Jair Soares estava liderando a eleição, por pouco, mas estava liderando. Nos bastidores, fora do ar, o pessoal da retaguarda na rádio me cobrava um resultado daquela exclusividade. O Ribeiro, irritado, chegou a me dizer, "de que adianto você estar aí sozinho se não consegue falar com o candidato... Perda de tempo e de dinheiro!"

Recebia muita pressão e comecei a pressionar os assessores do Simon. Eles estavam preocupados com os números que distanciavam Jair cada vez mais do Simon. Na verdade, naquele tempo, os números eram aleatórios e inúteis para refletirem uma amostra estatística da eleição, mas pelo rádio serviam para estimular a fiscalização. Ao meio-dia, em um boletim gravado, relatei o clima de descrédito descrevendo uma reviravolta eleitoral reinante em Rainha do Mar e creditei a certeza desta situação ao candidato que se negava a comentar sobre o pleito. Os assessores que faziam rádio escuta na Gaúcha me chamaram e negociaram uma entrevista. Eu deveria me ater a uma pergunta genérica sobre a eleição. A entrevista foi marcada para as 3 da tarde na varanda da casa do Simon. Além de mim estava um fotógrafo da ZH e alguns repórteres de jornais do centro do País. Eu era o único microfone ao vivo, graças à engenharia do Holmes.

A entrevista foi um desastre para o Simon, porém, foi um enorme furo de reportagem para nós. Sob o bombardeio das perguntas, as minhas e as dos demais repórteres de jornal, o candidato admitiu a derrota na eleição, isto tudo ao vivo pela Rádio Gaúcha. A notícia em minutos rebateu em cheio no Rio Grande inteiro onde quase simultaneamente foi repercutida pelas demais rádios do Estado e do País. À bem da verdade, a apuração estava longe de ser encerrada e a admissão da derrota foi o pior erro estratégico do Simon. A declaração do candidato desmobilizou a fiscalização “emedebista” nos mais remotos rincões gaúchos. O processo eleitoral brasileiro não era confiável, prova disso foi o episódio “Proconsult” envolvendo o Leonel Brizolla no Rio de Janeiro na mesma eleição. No final, Simon perdeu por apenas 22.623 votos num universo de 2 milhões 567 mil e 281 de votos. Jair fez 1 milhão 294 mil e 962 votos contra 1 milhão 272 e 319 do Simon. A desmobilização dos partidários favoreceu a existência de fraudes admitidas anos depois pelo próprio Simon.

No dia seguinte, os jornais estamparam a imagem da derrota. Uma capa inteira a ZH estampava uma foto do Simon sentado na área da casa de praia com um olhar distante e triste, na manchete era admitida a vitória do adversário.

Hoje, passados quase 40 anos, fico pensando que se eu não tivesse pressionado tanto pela entrevista ao vivo ou se o Holmes não tivesse a competência de montar um esquema de transmissão tão complexo para aqueles anos, será que a história política do Rio Grande não seria diferente?

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Jalmo Fornari
Jalmo Fornari
Jalmo Fornari é diretor-proprietário do Sistema Província de Comunicação. Jornalista já atuou nos principais veículo de comunicação do Rio Grande do Sul, como as rádios Gaúcha e Guaíba. Também é advogado com pós graduação em direito previdenciário. Como político foi vereador em Tenente Portela por diversos mandatos, tendo ocupado por diversos momentos o cargo de prefeito. Nesta coluna você acompanha crônicas, textos e memórias.
Ver notícias
Tenente Portela, RS
24°
Chuva
Mín. 16° Máx. 25°
25° Sensação
3.02 km/h Vento
87% Umidade
100% (17.21mm) Chance chuva
07h21 Nascer do sol
18h00 Pôr do sol
Quarta
18° 14°
Quinta
18° 11°
Sexta
16° 12°
Sábado
21° 14°
Domingo
21° 13°
Economia
Dólar
R$ 5,07 -0,39%
Euro
R$ 5,78 -0,48%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 356,538,45 +1,61%
Ibovespa
173,375,48 pts 0%
Enquete
...
...
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias