
Tempos do Diário de Notícias
Na vida, algumas coincidências são inexplicáveis ou, às vezes, simplesmente encantadoras. Uma das muitas lembranças da minha primeira infância, quando mal tinha 5 anos, é daquele tempo em que papai passava semanas na estrada com seu caminhão FNM. No seu retorno, já em casa, sentado no sofá, ele me chamava para que eu fosse até a casa da Dona Maria Fortes, onde funcionava o posto dos correios, buscar um jornal. Eu ia, saltitante de felicidade, com a nota de “dois cruzeiros com a estampa do Duque de Caxias” enroladinha no bolso, com a qual eu comprava um ou dois exemplares do Diário de Notícias, o que o dinheiro permitisse. O jornal chegava à nossa cidade com dois ou três dias de atraso. Naquele tempo, eram notícias recentes, que traziam mais detalhes sobre os assuntos que meu pai acompanhava religiosamente no “Correspondente Renner da Rádio Guaíba”, sintonizado em casa em um rádio Philips, que tinha lugar de destaque na nossa sala.
Em um desses dias, lembro de Dona Maria ter me perguntado se o “gurizinho” sabia ler. Com vergonha de dizer que não, menti que já sabia, e ela, para o meu desespero, pediu que eu lesse o título do jornal. Na verdade, eu estava apenas começando a aprender o alfabeto no colégio das Irmãs, com a dileta e dedicada professora Iracema Bonotto. Mesmo assim, comecei a soletrar: "Dêêê, iiiiiii, aaaaa... diaaaa...". Dona Maria completou: Diário. Entusiasmado, tentei continuar: "Dêee... eeeee..." Dona Maria, quiçá impaciente com a minha indecisão, arrematou: Diário de Notícias.
— Que menino inteligente! Já sabe ler! — disse ela.
Sorri, olhei orgulhoso para aquela bondosa senhora, coloquei o maço de jornais debaixo do braço e saí correndo porta afora. Havia recebido a maior e melhor notícia da minha vida: eu sabia ler! Precisava contar urgente para o papai. Percorri o trecho da rua Uruguai até a nossa casa quase voando sobre as pedras soltas e sobre o pó. Ia repetindo mentalmente a palavra "Diário, Diário...".
— Pai! Pai! Eu já sei ler! — E coloquei decididamente o jornal na mesa de centro, ao lado de um vaso com flores de copo-de-leite da mamãe. Recuperando o fôlego, sob o olhar curioso de papai, com o dedo em riste apontado para as palavras, olhei para ele em busca de aprovação e comecei: — DIIII-ááá´rrriiioooo! — Tranquei. Faltou o resto, mas meu pai completou, afagando carinhosamente minha cabeça e me elogiando: — Que bonito! O Jalmo já sabe ler!
Eu, com 5 anos incompletos, transbordava de orgulho.
Quinze anos mais tarde, em Porto Alegre, recém-ingresso na Famecos da PUC, consegui, graças ao apoio do meu amigo Adriano Gaieski, o meu primeiro emprego como jornalista!
Onde????
No Quarto Distrito, na Avenida São Pedro, quase esquina com a Farrapos. Sim, no Diário de Notícias!
Às vezes, quando recebia o meu exemplar para ler as matérias que eu havia escrito, vinha à memória, ao ver aquele título na capa, essa terna e longínqua lembrança da infância.