
Neste domingo (22), completará 18 anos que Tenente Portela sagrou-se campeão da Copa Sul Sub 21. A edição de 2001 foi batizada de ‘Taça Capitão Dunga’, em homenagem ao jogador que comandou em campo a Seleção Brasileira na conquista do tetracampeonato mundial em 1994, nos Estados Unidos.
A Copa Sul Sub 21, que tinha o apoio da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), movimentou o futebol amador em dezenas de municípios do Rio Grande do Sul entre o fim da década de 90 e o início dos anos 2000.
Com essa reportagem, o Sistema Província de Comunicação visa relembrar um capítulo especial da história do futebol de Tenente Portela que ganhou destaque no cenário estadual. Neste contexto, cabe mencionar o apoio da torcida que praticamente lotava o Estádio do Miraguai nos dias de jogos do sub 21.
Entretanto, antes de contar os detalhes mais importantes da conquista épica diante de Roca Sales, vamos recordar os resultados e os fatos lamentáveis que ocorreram durante as semifinais contra Palmitinho. Para se ter uma ideia, houve a realização de um duelo extra, em Cruz Alta, sem a presença de torcedores.
As tumultuadas semifinais:
Certamente, a proximidade entre Tenente Portela e Palmitinho acirrou os ânimos para as semifinais da competição estadual. O confronto de ida foi disputado no Estádio do Miraguai. O cruzamento que definiria o outro finalista reunia as representações de Roca Sales e Garibaldi.
Apoiado pela torcida, o time comandado pelo técnico Altemir de Oliveira (Fofo) venceu por 2 a 0. Com este resultado, necessitava apenas de um empate no jogo de volta para alcançar a final da Copa Sul Sub 21 daquele ano.
Um clima totalmente hostil. Foi com isso que a delegação de Tenente Portela se deparou ao desembarcar do ônibus e adentrar nas dependências do estádio em Palmitinho. Era visível que haveria forte pressão, especialmente em cima da arbitragem, para que os donos da casa conseguissem reverter à desvantagem.
Apesar do ambiente tenso, os atletas de Palmitinho e Tenente Portela proporcionavam um belo espetáculo de futebol, com vários gols e viradas no marcador. Já transcorria o segundo tempo e persistia o empate em 3 a 3 quando o árbitro assinalou pênalti para a equipe portelense.
A marcação revoltou os jogadores de Palmitinho, que juntamente com integrantes da comissão técnica e alguns torcedores, de forma covarde, agrediram fisicamente e verbalmente o trio de arbitragem. Houve invasão de campo e os fatos lamentáveis somente cessaram depois da intervenção dos policiais militares.
Sem condições de segurança, a arbitragem encerrou o duelo. No caminho entre o campo e o ônibus, a delegação de Tenente Portela ainda foi alvo de xingamentos, empurrões e tapas. O árbitro e os assistentes precisaram de atendimento médico no hospital.
Os fatos graves registrados levavam a crer que Palmitinho seria excluído do campeonato, mas a organização da Copa Sul Sub 21 surpreendeu negativamente e agendou uma partida extra, com portões fechados, no Estádio do Nacional em Cruz Alta.
Apesar dos temores de novos tumultos, o clássico regional foi disputado normalmente e os portelenses venceram por 2 a 0, assegurando a vaga na final da ‘Taça Capitão Dunga’.
Raça e superação nos jogos decisivos:
Tenente Portela e Roca Sales chegaram à decisão da ‘Taça Capitão Dunga’ após passarem por semifinais conturbadas e repletas de cenas lamentáveis, e merecedoras de enorme repúdio por quem apreciava e defendia o bom futebol na época.
O confronto de ida ocorreu no dia 15 de dezembro de 2001, no Estádio do Miraguai com um grandioso número de torcedores. Exercendo uma pressão inesperada, os visitantes surpreenderam e conseguiram abrir o placar logo aos quatro minutos da etapa inicial. No entanto, antes do intervalo, a equipe treinada por Fofo já tinha virado o marcador para 2 a 1, com dois gols de Élver.
O segundo tempo começou com o selecionado portelense mais retraído, claramente querendo a manutenção do resultado e dando a posse de bola para o adversário. A estratégia não deu certo. Em um cruzamento para a área, a defesa de Tenente Portela falhou e o atacante de Roca Sales cabeceou para empatar: 2 a 2.
Empurrados pela torcida, os donos da casa se lançaram ao ataque. Paulo Cezar Bairros (Espírito) marcou mais duas vezes, mas a arbitragem anulou alegando impedimento em ambos os lances.
Depois do resultado de 2 a 2, os comandados de Fofo precisariam vencer ou então, empatar a partir de três gols no duelo de volta para ficar com o título inédito e tão cobiçado.
Enfim, chegava o grande dia. Uma garoa fina e gelada caía na tarde daquele sábado, 22 de dezembro de 2001. Aos poucos, o acanhado estádio de Roca Sales ia enchendo de torcedores, entre eles, inúmeros portelenses. O jogo derradeiro da competição estadual teve transmissão da TVCom.
A tensão predominou desde que a bola rolou. Tenente Portela tinha pressa, pois buscava algum escore que lhe garantisse o troféu de campeão. Uma postura mais ofensiva em campo foi a tática adotada, mas todos sabiam dos perigos de um contra-ataque fulminante. E, justamente numa escapada em velocidade, o atacante de Roca Sales invadiu a área e acabou derrubado pelo goleiro Gian Bassani. Pênalti.
O placar desfavorável de 1 a 0, sem dúvidas, fez muitos torcedores no estádio e também aqueles que acompanhavam pela Rádio Municipal AM, desacreditarem que o título viria para nosso município. A situação ficou ainda pior quando o zagueiro Jegue foi expulso ao marcar um gol com a mão. Ele já tinha cartão amarelo.
Sem alternativa, o time portelense se atirou literalmente para o ataque. A conquista épica começou a ser desenhada em um escanteio. Élver cruzou e o zagueiro Ricardo, de cabeça, completou para as redes: 1 a 1. O gol renovou as esperanças na vitória e assustou a equipe anfitriã. O empate também silenciou a torcida local.
Em outro escanteio, novamente Élver bateu, o goleiro de Roca Sales falhou ao tentar segurar a bola e o zagueiro Ricardo, com o bico da chuteira, apenas teve o trabalho de empurrar para dentro do gol: 2 a 1. Depois da virada no marcador, restou para Tenente Portela se defender e esperar o apito final do árbitro para comemorar o título.
Um detalhe curioso sobre o autor dos dois gols na decisão. Poucos dias antes do jogo, o zagueiro Ricardo sofreu um acidente de trânsito na região de Itapiranga, em Santa Catarina. O veículo em que ele estava ficou praticamente destruído.
Para quem vivenciou aquelas tumultuadas semifinais contra Palmitinho, o que aconteceu em Roca Sales naquele sábado foi digno de admiração e algo para se guardar na memória. A delegação de Tenente Portela saía do campo e era aplaudida em pé pelos torcedores adversários que ocupavam as arquibancadas e outros setores do estádio.
As demonstrações de reconhecimento pela bravura do time portelense não se restringiram ao estádio. Pelas ruas onde o ônibus passava, as pessoas aplaudiam e parabenizavam pelo título. Essas atitudes só evidenciaram o rótulo dado a Roca Sales: ‘Cidade da Amizade’.
A comemoração:
A viagem entre a região do Vale do Taquari e Tenente Portela (cerca de 400 quilômetros), parecia nunca terminar, tamanha a vontade de comemorar o título com a torcida. Já era madrugada do domingo quando o ônibus foi recepcionado no trevo de entroncamento da RST 472 e a RSC 163, com um ensurdecedor foguetório e buzinaço.
Na cidade, atletas, dirigentes e comissão técnica, desfilaram no caminhão dos bombeiros exibindo o troféu de campeão. A comemoração se concentrou na Praça Tenente Bins e prosseguiu até o dia amanhecer.
*Fotos cedidas por Élver Vargas;
*Reportagem: Diones Roberto Becker (Neis);

