
Polícia Civil e Brigada Militar efetuaram nesta quinta-feira a Operação Truck Hunters, com objetivo de desmantelar uma organização criminosa especializada em furto de caminhões do Rio Grande do Sul. A quadrilha é apontada como uma das maiores do Estado em crimes do tipo. Vinte pessoas foram presas.
A ofensiva ocorreu após dois anos de investigações da Delegacia de Repressão a Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) e da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (DRCOR), vinculadas ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC). Os trabalhos foram integrados com a Agência Regional de Inteligência do Comando de Policiamento Metropolitano da BM.
Foram cumpridos 28 mandados de prisão preventiva, além de 54 ordens de busca e apreensão, em São Leopoldo, Novo Hamburgo, Viamão, Gravataí, Canoas, Guaíba, Porto Alegre, Capão da Canoa, Tramandaí, Portão, Alvorada, Sapucaia do Sul, Mariana Pimentel e Santa Maria. Também ocorreram diligências no sistema penitenciário, onde as lideranças do bando cumprem pena
Os criminosos mantinham um esquema que combinava furtos qualificados, extorsão sistemática das vítimas e desmanches em escala industrial. A investigação começou em setembro de 2023, quando uma denúncia anônima levou policiais militares do 18º BPM a um galpão, aparentemente abandonado, na Estrada João de Oliveira Remião, em Viamão. No local, os PMs prenderam três homens que desmanchavam um caminhão furtado.
“A organização criminosa funcionava como uma verdadeira empresa do crime, com departamentos especializados, hierarquia rígida e procedimentos operacionais padronizados. Esse nível de sofisticação, a capacidade de causar danos econômicos e o terror psicológico imposto às vítimas tornaram a investigação uma prioridade absoluta para nossa especializada”, afirmou o delegado Gabriel Lourenço, que responde pela Delegacia de Repressão a Roubos e Furtos de Cargas.
Entenda o esquema criminoso
Fase 1: A Caçada
A quadrilha tinha uma espécie de sistema de inteligência criminal. Membros da organização se posicionavam em postos de combustível, especialmente ao longo da BR 116, RS 122 e outras rodovias importantes, observando caminhões que carregavam mercadorias valiosas. Ração animal, materiais de construção, produtos eletrônicos eram os alvos preferenciais.
Quando identificavam um alvo promissor, os criminosos iniciavam um "levantamento" detalhado. Eles chegavam a fotografar e filmar, não apenas o caminhão, mas todo o entorno onde o veículo estava estacionado. Essas imagens eram compartilhadas via WhatsApp com os líderes da organização, que analisavam a viabilidade da operação considerando rotas de fuga, horários de movimento e presença policial na região.
Fase 2: A Execução do Furto
Os furtos eram executados com precisão militar. Equipes de dois ou três criminosos se aproximavam do alvo usando as "chaves micha" fabricadas por um dos líderes do esquema. Essas chaves especiais, resultado de anos de experiência criminal, eram capazes de dar partida em qualquer modelo de caminhão, eliminando a necessidade de arrombamento ou danos visíveis ao veículo.
Durante a ação, outros membros faziam "campana" em pontos estratégicos, alertando sobre qualquer aproximação policial através de mensagens instantâneas.
Fase 3: O Terror da Extorsão
Poucas horas após o furto, as vítimas recebiam ligações telefônicas dos membros especializados em extorsão. O roteiro era sempre similar e calculadamente aterrorizante.
Os valores exigidos variavam entre R$ 5 mil e R$ 100 mil, dependendo do modelo do veículo e do valor da carga. Os pagamentos eram feitos através de transferências bancárias para contas de terceiros ou, em alguns casos, entregues pessoalmente em locais combinados.
Fase 4: O Desmanche Industrial
Quando as vítimas não pagavam o "resgate", ou quando a organização decidia que era mais lucrativo vender as peças, os caminhões eram levados para os galpões de desmanche. A quadrilha havia estabelecido uma verdadeira linha de produção para essa atividade.
Segundo a Polícia Civil, o processo era tão sistemático que incluía a adulteração completa da identificação dos veículos. Placas eram trocadas, números de chassi eram raspados e substituídos, e até mesmo a pintura era alterada para dificultar qualquer tentativa de identificação posterior.
Fase 5: A Rede de Receptação
A organização criminosa desenvolveu uma extensa rede de receptadores em diversas cidades gaúchas. Eram redistribuídas autopeças para oficinas e revendedores em toda a Região Metropolitana. Além disso, um dos comparsas fornecia veículos de uma revenda para as operações criminosas. Segundo a investigação, esses carros também eram produto de furtos.
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