
Havia na Câmara Municipal um vereador pouco afeito a solenidades e discursos que, por obra de um conchavo político, acabou eleito presidente da Casa. O rodízio previamente acordado entre os partidos da situação determinava que chegara sua vez de ocupar o cargo.
Apesar da evidente falta de traquejo para a função, ele não fez objeções. Afinal, a presidência vinha com um generoso acréscimo de 50% no salário — um sacrifício que, convenhamos, qualquer um estaria disposto a enfrentar.
Sabendo da pouca familiaridade do novo presidente com protocolos, o secretário executivo da Câmara decidiu preparar um roteiro detalhado para que ele seguisse durante a primeira sessão solene. Era uma homenagem ao Município, e o plenário estava cheio: alunos das escolas estaduais, autoridades e membros da comunidade lotavam o recinto. O momento pedia pompa e formalidade.
O vereador-presidente assumiu a tribuna, respirou fundo e, com voz solene, iniciou a leitura do roteiro cuidadosamente redigido pelo secretário:
— Primeiro, bate a sineta três vezes...
E bateu.
— Em seguida, pede para que seja tocado o Hino Nacional...
E pediu.
— Depois, diz: “Em nome de Deus, eu declaro aberta a sessão extraordinária”...
E declarou, satisfeito com o próprio desempenho.
A plateia assistia em silêncio, mas os primeiros murmúrios começaram a surgir quando o presidente seguiu lendo, sem perceber que estava apenas reproduzindo as instruções do secretário:
— Depois, pede para o vereador secretário ler a ata de convocação...
O secretário arregalou os olhos. O homem estava lendo o roteiro como se fosse o discurso oficial! Tentou acenar discretamente, tossiu alto, mas nada deteve a determinação do presidente, que continuava em sua maratona de leitura:
— Agora, faz uma pausa para que o público possa se acomodar melhor...
Foi nesse momento que o secretário, vendo que a tragédia anunciada se tornaria irreversível, correu até a mesa presidencial para impedir que o espetáculo prosseguisse. Mas era tarde demais. A essa altura, a plateia já se cutucava, sorrisos eram trocados, e até mesmo algumas risadinhas escapavam entre os mais contidos.
O presidente, percebendo que algo estava errado, suspirou fundo, passou o roteiro para o lado e, sem perder a pose, decretou:
— Assim não dá! Vamos fazer do meu jeito!
E fez:
— Boa noite a todo o pessoal que se encontra aqui!
Do jeito dele, levou a sessão — aos trancos e barrancos — até o fim. Ficou melhor que o script.
Dizem que a homenagem ao Município nunca foi tão... inesquecível.