
Durante uma de suas campanhas eleitorais nos anos 1970, o Vermelho — funcionário público carismático que acabou sendo vereador e prefeito na pequena cidade em duas ocasiões — decidiu visitar velhos companheiros em busca de apoio para o pleito que se aproximava.
Numa tarde abafada, chegou à modesta casa de Juvenal Morais com seu jeito extrovertido e cheio de entusiasmo político e com um grande cacife eleitoral. Foi atendido por um rapaz jovem na porta, ainda limpando a soleira com a manga da camisa.
— E aí, guri! — saudou o Vermelho, abrindo largo sorriso. — Cadê o seu Juvenal?
O rosto do rapaz se fechou. Com a voz embargada, respondeu:
— Seu Vermelho, não soube? O senhor Juvenal, meu pai, faleceu há uns três meses.
O silêncio que se seguiu poderia ter encerrado o encontro ali mesmo, em clima de constrangimento. Mas o Vermelho, acostumado ao improviso, ergueu o queixo e pronunciou, com solenidade:
— Morreu para você, talvez. Mas vive em cada um de nós! Nas lembranças, na memória e nos ideais que compartilhamos. Um homem como o seu pai não cabe em caixão nenhum!
Os olhos do jovem brilharam. Num gesto espontâneo, ofereceu a mão ao candidato:
— Desculpe a gafe, senhor. Se o senhor mantém meu pai vivo no coração, conte comigo nesta campanha.
Recuperado do susto, o Vermelho sorriu e aceitou o convite para entrar. O filho de Juvenal puxou uma cadeira coberta por um pelego de ovelha e serviu-lhe mate. Entre goles e histórias, discutiram o futuro do município, criticaram os que governavam e recordaram, com saudade, as ocasiões em que Juvenal botou a cidade na ponta do pé.
Dias depois, o jovem despontou no comitê de campanha, mais engajado do que nunca: colava cartazes, distribuía santinhos e contagiava outros voluntários. A morte de Juvenal Morais transformara-se numa semente de entusiasmo — seu legado reverberava em cada porta batida.
E foi assim que o Vermelho, com habilidade e empatia, conquistou o maior apoio registrado na história da cidade: eleito vereador com recorde de votos, cumpriu depois dois mandatos como prefeito — um por eleição direta e outro por nomeação —, sempre carregando no peito a lembrança viva de seu velho amigo.