
Ele, quando chegou por aqui, era um jovem forte e muito decidido. Havia abraçado a carreira sacerdotal por vocação, desejo de liderança e fé, muita fé. Nasceu em 1º de abril de 1914, três meses antes do início da Primeira Guerra Mundial, que abalaria o mundo. Nasceu em Nova Palma, na Região Central do Estado do Rio Grande do Sul, na chamada Quarta Colônia, uma região com forte presença da religião católica, marca da imigração italiana.
Albino Ângelo Busato foi ordenado padre no atual município de Ibarama, na Paróquia de Erechim, e depois transferido para Frederico Westphalen, onde, em 1946, recebeu a incumbência de assumir a comunidade de Tenente Portela, no outro lado do Rio Guarita.
O próprio vigário registra no livro tombo da paróquia as primeiras impressões de nossa cidade: “Tenente Portela foi um distrito sem ser paróquia. Não havia voz permanente que orientasse as famílias. Era o lugar onde se refugiavam os casais separados repentinamente em outras paróquias ou unidos em uniões ilícitas. Por ser um lugar fronteiriço, em Portela se reuniam os bandidos, os criminosos. As famílias aqui criadas cresceram sem escola, sem catecismo, sem vida cristã. Consequentemente, era lugar de bailes semanais, de encrencas, brigas e mortes. E, meio a um povo assim formado, inclinado para a vida mundana, era necessária a energia, mas não devia faltar a prudência nos casos concretos. Corrigir sem melindrar, sem rebaixar, sem desgostar. Seguindo a recomendação e o conselho dos superiores, pregando em todas as ocasiões, conseguiu-se chegar ao final do ano de 1946, com alegria no coração.”
Como ele bem descreve, seria um trabalho e tanto pela frente. Assumiu uma minúscula capela margeada por um pequeno capitel de madeira e imediatamente deu início à construção de uma nova e maior igreja de madeira, enquanto acalentava o sonho de construir um marco que ficaria eternamente registrado na cidade.
Faltava tudo por aqui. Resolveu trazer as irmãs de caridade para cuidarem da Associação Hospitalar, que até então era um posto de atendimento particular. Estimulou a criação de uma biblioteca na paróquia, controlou a proliferação de casas de prostituição na cidade, palmilhou o território organizando capelas, vez por outra nominando algumas das margens do Rio Uruguai, limitando-se pelo Rio Turvo e pelo Guarita. Foi decisivo no processo do plebiscito de emancipação do município. Muito mais decisivo para que fosse eleito como primeiro prefeito um sujeito que já havia administrado outras duas cidades, inclusive Santa Rosa. Fundamental para que os interesses políticos não abalassem a harmonia que se estava tentando construir, mas isso foi difícil. Por fim, ele estimulou a produção de pessoas teatrais, a criação das chamadas “Filhas de Maria” e até atuou no debate da reforma agrária, do combate às pragas das formigas e da produção de novas variedades agrícolas, apoiando a vinda de novas técnicas... Afinal, era um “pau para toda obra”.
Mas, no íntimo, o sonho, a grande obra, era construir uma igreja que ostentasse toda a transformação que ocorria na pequena povoação. Um engenheiro da cidade de Ijuí foi contratado para desenhar e projetar o sonho, enquanto Nelson Lima, nosso artista local, ornamentava e pintava altares, púlpito e quadros na nova igreja de madeira na avenida Santa Rosa, onde fica hoje a casa paroquial.
A planta encantou tanto a comunidade e ao padre que muito poucos questionaram se a paróquia tinha sustentação econômica para tanto. Afinal, era uma igreja moderna, com vitrais modernos, com confessionários anexos que funcionavam ora como locais de altares auxiliares, ora como locais de confissão. Mais que a enorme estrutura com uma “cripta” para abrigar festas e confraternizações, a igreja teria uma majestosa torre, com 45 metros de altura, que pudesse ser vista de todos os cantos da região em dias de céu claro. Seria dedicada a Nossa Senhora Aparecida, que receberia um mural de azulejos retratando a sua aparição nas águas do Rio Paraíba do Sul em 1717. A torre seria margeada com belos e enormes vitrais retratando a religiosidade cristã. No interior, atrás do altar, apenas um crucifixo enorme em madeira com uma escultura em tamanho natural de Jesus Cristo Sacrificado.
A estrutura continua a mesma, fora as capelas e confessionários que foram colocados abaixo. Anos depois, o altar mudou, alguém teve a ideia de literalmente colocar de lado o Senhor crucificado que tanto nos impressionava nas missas de nossa infância, para estampar um painel de azulejos que retrata a ressurreição. O mural externo, não resistindo ao tempo, foi substituído por outro com o mesmo tema. Várias chuvas e tempestades obrigaram muitas reformas nos vitrais, o que fez com que fossem alteradas as imagens originais.
Ora, voltando ao projeto e à planta dos primeiros anos 60, menos de 15 anos da chegada do padre que ajudou a construir a cidade, a comunidade foi seduzida pelo projeto. Começaram a ser arrecadados fundos, buscados empréstimos junto aos paroquianos e buscada toda forma de apoio. Famílias cortavam árvores e as traziam para servir de andaimes, sustentação de lajes de concreto, elevadores e tudo mais. Praticamente todos estavam envolvidos. Foram alugadas olarias, a própria igreja tinha a chamada “Olaria do Padre” nas proximidades do Rio Parizinho.
Num prazo recorde, muito superior em proporção às obras públicas feitas na cidade hoje em dia, a obra foi entregue. O dia da inauguração contou com milhares de pessoas, missa com o bispo e vários sacerdotes. Um dia de glória para a religiosidade portelense e para o Padre Albino Busato. Era 27 de julho de 1964.
Passados alguns dias, começaram a surgir problemas na comunidade. Pessoas passaram a cobrar o que haviam emprestado para construir a obra. O tesoureiro, acusado injustamente de embolsar o dinheiro, se viu obrigado a mudar de paróquia. O próprio padre, que comandava a obra mas que não administrava, até então era uma tarefa delegada, acabou recebendo críticas e vendo muitos antigos fiéis o olharem de lado até no momento da comunhão.
Apesar de tudo, afinal, a igreja está erguida, linda, impressionante, marcante, um referencial portelense. A situação, agravada pelas cobranças e por histórias não esclarecidas, fez com que o padre, que ajudou a construir a cidade, deixasse Tenente Portela, que estava incrustada em sua vida e seria parte irremovível da sua trajetória, alegando problemas de saúde. Coube ao seu sucessor, com muita política e paciência, administrar a paróquia e equacionar o que foi possível em relação às dívidas, nomeando um novo conselho gestor do patrimônio.
Neste ano, o bom senso e o reconhecimento do sonho e da luta do Padre Albino Busato foram finalmente reconhecidos. O centro paroquial, tardiamente, foi batizado com o seu nome e a comunidade comemora, pela primeira vez, o aniversário da nossa imponente igreja, um marco indelével da fé, do sonho e da crença de que o que parece impossível é realizável. Uma gratidão ao homem que, com fé e determinação, ajudou a construir a nossa cidade.