
"Nesta semana, vamos contar mais uma história do “Alemão” (vamos chamá-lo assim para preservar a identidade), um “tinhoso” adolescente que, a cada semana, aprontava uma na pequena cidade. Esta história ocorreu na primeira metade dos anos 70, no auge do cinema em nossa cidade, como no resto do mundo. Em nossa cidade, porque havia sido inaugurada uma nova e 'moderna' sala de projeção, e o cinema, fora o rádio, era a maior ligação com o mundo exterior. Naquele tempo, os enormes cartazes dos filmes ficavam expostos nas ruas e, nas quartas, sábados e domingos, o cinema enchia de ávidos cinéfilos ou mesmo meros cidadãos que tinham ali uma das únicas oportunidades culturais da cidade.
Em um determinado sábado, estava programado o lançamento de uma fita de romance há muito tempo esperada pela comunidade. Formaram-se filas na bilheteria e na porta tipo 'saloon', que dava entrada à sala de espetáculos. O “Alemão”, o conhecido bagunceiro, naquela noite foi 'gentilmente' barrado na entrada. Era dia de casa cheia e suas brincadeiras poderiam causar transtornos durante a projeção.
Inconformado com o tratamento diferenciado que recebera, ele ficou andando no saguão até que começou o filme. Notou que o maquinista, por alguns instantes, se ausentou da sala de projeção, talvez para ir ao banheiro. Sem vacilar, o nosso herói pegou o último rolo do filme, colocou embaixo da camisa e saiu em direção ao parque de máquinas da prefeitura, onde hoje se situa o Banco do Brasil. Entrou embaixo de uma patrola, escondeu o rolo do filme e depois voltou para o saguão do cinema.
Passada uma hora, mais ou menos, no melhor do filme, onde a trama marchava para o seu desenrolar, as luzes foram acesas. No começo, os assistentes imaginaram que havia queimado a fita, o que ocorria com frequência, mas o tempo foi passando e, aumentando a algazarra provocada pela impaciência, ficou insustentável, até que o proprietário do cinema foi obrigado a intervir e confessar:
'Vocês podem ir embora, infelizmente ocorreu um imprevisto e nós não encontramos o último rolo de filme.'
Satisfeito com a traquinagem e sem conter a alegria, o “Alemão” mal continha o sorriso no meio da multidão irritada e desconsolada porque teriam que ir dormir mais cedo e com uma dúvida crucial: o mocinho ia ou não ia ficar com a mocinha no final. Como terminaria o drama?
Na segunda-feira, com a mesma sutileza com que escondera a lata com a fita, o “Alemão” recolocou o rolo do filme na sala de espetáculos do 'Cine Delcap'. Só muitos anos após, a história real foi revelada."