
Quem viveu a infância por aqui, nos anos 60 e 70, certamente há de lembrar do seu Lima. Aliás, "Limas" era o que não faltava na pequena cidade. A família era uma das pioneiras na colonização local, seguramente os primeiros chegaram ainda no final do século XIX. O mais famoso, sem dúvida alguma, foi o seu Francisco, conhecido como "Tico" Lima. Ele deixou como legado um monjolo de erva-mate, que mesmo não tendo mais o que socar, ficou por anos batendo sozinho, registrando a técnica rudimentar de outrora utilizada no fabrico da erva, na quebra do milho ou no descascar do arroz.
Porém, o Lima a que me refiro, e que será o protagonista deste causo, é o seu Lima que morava na rua Tapuias e que tinha um jipe. Aliás, ter um carro naquela época diferenciava a pessoa e a colocava em evidência natural na minúscula cidade. Mas o nosso Lima, um senhor baixinho, gordo, moreno, cabelos negros e com traços indígenas no rosto, era mais do que um condutor do jipe verde com toldo de vinil preto: ele era quem fazia o papel de veterinário na cidade. Seguramente era o único prático com ferramentas para lidar com os animais em um raio físico de 60 quilômetros. Ele atendia o que se chama hoje de animais grandes. Cachorro e gatos, nem pensar, afinal, "cuscos" havia aos montes e era melhor perder tempo com vacas, porcos, cavalos e bois. Destes sim dependiam as propriedades rurais.
Numa daquelas muitas tardes monótonas, seu Lima, como sempre fazia, por volta das 18 horas, desceu com seu jipe a Rua Guaranis, em frente ao hospital. A rua era uma ladeira sem paralelepípedos. O mesmo tratamento urbano era dado à Tapuias, a rua do hotel, onde, por azar, naquela tarde, trafegava seu Marino, com seu De Soto 1951, azul piscina, repleto de cromados reluzentes. A monotonia do final de tarde foi rompida por um acidente de trânsito entre o De Soto e o jipe. Algo raro e quase inimaginável entre dois carros, uma vez que podiam ser contados nos dedos das mãos todos os veículos da frota local da época.
Após o choque, os carros pararam a uns 3, 4 metros de distância um do outro. No chão, restos de espelho, lascas de massa plástica e frisos cromados. Na verdade, foi praticamente um abalroamento lateral. Ninguém se feriu fisicamente, embora moralmente os proprietários se sentissem atingidos. Afinal, de quem era a culpa, passou a ser o dilema.
Marino, com a calma que lhe era peculiar, justificou que ele trafegava na via principal e de repente foi colhido por um veículo descendo a Guaranis, fazendo a curva no sentido do "bosque". No entanto, sua versão, embora lógica, não era preponderante. Era necessário ouvir seu Lima, que ainda atônito circulava em torno do jipe para avaliar os estragos. Na verdade, eram poucos, um farol quebrado e um paralamas arregaçado. Muito menos do que o De Soto, que estava esfolado "de cabo a rabo" na sua lateral esquerda.
Curiosos, assim como moscas, foram cercando a cena do acidente. Opiniões de toda a ordem confundiam os dois envolvidos, que se julgavam plenos de razão. Foi quando o soldado Pedro chegou na cena do acidente. Cauteloso, perguntou se haviam feridos, depois olhou tudo minuciosamente com um profundo olhar crítico de desaprovação. Afinal, um choque de carros na cidade era coisa muito rara naqueles tempos. Fez perguntas, esqueceu ou nem fez questão de pedir a documentação dos veículos e dos condutores, afinal, eram pessoas conhecidas demais na cidade, onde não era todo mundo que tinha um carro. Após vários minutos recebendo informações, impacientes, em uníssono, os dois envolvidos perguntaram:
E aí, soldado Pedro??? Quem tem razão?
O soldado, após fazer uma cara de muita reflexão e preocupação, lascou peremptoriamente:
Para uma posição correta, só mesmo o delegado Renê, mas ele se encontra em viagem para Santa Rosa!!
O burburinho entre as partes e os presentes reiniciou. Então, lembrando do atraso para o seu religioso mate de fim de tarde na varanda, seu Lima decidiu pôr fim ao espetáculo alteando a voz de forma determinante:
Olha, seu Marino, ninguém te mandou bater em "mim" (sic)!! Você vai pagar o conserto do meu jipe!!! Afinal, assim como todo mundo nesta cidade sabe, todo santo dia eu passo por esta rua sempre nesse horário! Devias ter mais cuidado e saber que este é meu "cruzo" (sic) há anos !!!
Antes que a confusão voltasse a reinar, ele montou no jipe, dirigiu por uns 80 metros até entrar no pátio da sua residência, que ficava um pouco adiante do local do acidente. Entrou em casa, se lavou e, mesmo com o atraso de muitos minutos, fez um palheiro, montou o mate e foi sentar na varanda. Aos poucos, os curiosos foram se dissipando. Alguns ainda passaram em frente a sua casa, porém se reservaram a apenas observá-lo de soslaio. Afinal, depois de um dia de trabalho encerrado com um absurdo acidente, aquele homem metódico e decidido, que havia passado o dia mexendo com cavalos, vacas e touros, merecia o seu descanso.
Claro que a tese do Lima não prevaleceu. Assim que o delegado Renê voltou de Santa Rosa, ele reuniu os dois no gabinete da autoridade e de lá saíram com a decisão de que cada um pagaria o conserto do seu carro. Lima, evidentemente, continuou por anos dono da rua naquele horário. Felizmente, para a tranquilidade da Vila, não encontrou mais ninguém trafegando pela frente.