Especiais Jalmo Fornari
Nos tempos da televizinho
A TV chegava devagar nos grotões do País.
26/02/2024 15h24 Atualizada há 2 anos
Por: Jalmo Fornari

Era uma época em que o rádio era o grande elo com o mundo. O imediatismo do rádio, através de ondas médias, curtas ou tropicais, levava informações, novelas e músicas às casas mais distantes. Emissoras como a Rádio Tupy do Rio, a Rádio Guaíba, a Farroupilha e a Globo do Rio disputavam espaço com a TV, que surgia lentamente, primeira desacelerada pelo custo dos aparelhos, e depois limitada pelo sinal das transmissões, que atingia apenas grandes centros urbanos. Por muito tempo, nas pequenas cidades, o "chic" era o rádio, onde as enormes vitrolas eram um sinal visível de ostentação nos cantos das salas de visita.

Naquele mundo, o técnico de rádio era uma pessoa respeitada, pois com seu conhecimento permitia o restabelecimento do contato com o resto do país e com a música. Consertar os antigos aparelhos super-heteródinos (a válvulas) e os primeiros transistorizados era um serviço de alta tecnologia naqueles cantos distantes do mundo.

Portela não era diferente. O sinal de televisão só chegou nos anos 70 e era para poucos, muito poucos mesmo. Para captar a imagem cheia de fantasmas e chuviscos, eram necessárias antenas enormes sustentadas por canos de metal "estaiados" que se elevavam, às vezes, por 20 a 30 metros do solo. No entanto, o surgimento da TV foi uma expansão das atividades do técnico em eletrônica, que se obrigava a viagens e cursos para aprender a tecnologia que prometia se popularizar.

O problema real era o sinal fraco que, nos dias de vento ou no frio do inverno, obrigava alguém a sair do quentinho da sala para reposicionar a antena, aos gritos: - E aí!!! Melhorou!! Quem estava dentro, também aos berros, de frente para a “Telefunken”, respondia: - Não!! Mais para a esquerda!! O que estava fora dizia: - Já dei uma volta!! Ao que o que estava dentro respondia: - Então volte!! Vai acabar arrebentando o fio! Era um espetáculo sonoro para garantir mais um capítulo da novela "Irmãos Coragem".

Foi a necessidade de vender mais aparelhos que fez surgir uma ideia genial, coordenada por Armando, o dono da loja que vendia as TVs. Decidiram reunir os proprietários de TVs e, mediante um valor mensal, criar e sustentar o "TV Clube". O clube de "telespectadores" adquiriria um pequeno repetidor de sinal e o instalaria no topo da torre da Igreja Matriz. Evaldo, o técnico da cidade, seria o responsável pela instalação e manutenção do equipamento.

Na minúscula cidade, durante o dia, preponderava o rádio, e à noite, para quem tinha TV, era o Jornal Nacional e a novela, que era uma sensação no país. Como o assunto em todas as rodas era o destino dos personagens das novelas, por haver poucas TVs, automaticamente se criou a rede de "televizinhos". Eram visitas com o único propósito de assistir TV no vizinho. O costume fazia com que em algumas casas, após o jantar, na sala principal, estivessem 15 a 20 pessoas que iam visitar sem dizer nada, só para assistir às aventuras dos Irmãos Coragem e da Índia Potira.

Quando o tempo piorava e o sinal caía ou piorava, era preciso ir lá fora mirar novamente a antena na torre da Igreja ou ligar para Evaldo ou Armando para consertarem a repetidora. Quase todo mundo ligava ansioso para não perder um capítulo. O técnico, na época jovem e disposto, subia por um conjunto de escadas íngremes os 45 metros da torre com um aparelho de TV Philco de 14 polegadas pendurado nas costas e uma mochila repleta de multímetro, soldador e peças reservas... Era um ofício perigoso, mas que tinha uma importância reconhecida na pequena cidade.

Eram tempos em que a TV, além de manipular ideologicamente, também proporcionava lazer e aproximação entre as pessoas, pautando os assuntos nos bares e nos encontros dos amigos.